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Sophia - "Realidade"

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011
A Universidade de Santa Martha é um local bonito e bem arborizado, uma ótima paisagem agora nesse tempo frio de inverno. Passamos por grandes passarelas bem projetadas e na beira de um bonito e extenso lago, com patos e cisnes passeando e mostrando sua indiferença ao frio maldoso que fazia.

Sophia sorria e seus olhos brilhavam vendo aquilo tudo. Tentava chegar perto dos cisnes que estavam na beira do lago para tocá-los mas ficava no empasse entre a curiosidade e o medo de ser bicada. Quando finalmente parecia ter estabelecido uma confiança entre ela e o animal e estava quase o tocando eu gritei “Boo!” e ela deu um salto e um grito que fez eco no lugar, e o cisne assustou-se e bateu suas asas na água ao se afastar, jogando água em nós.

- Dan! Isso não se faz!! – Disse e estabeleceu uma cara de emburrada.
- Ah... não aguentei, desculpa! – Respondi rindo.
- Puxa... estava quase o tocando. Bom, vai que ele ia me bicar mesmo. – Disse, conformada – Ei, vamos lá na secretaria, senão não vai dar tempo. – Disse e pegou pela minha mão, com a intenção de me guiar até o lugar, o que é bom já que eu jamais tinha vindo aqui.
- Conhece bem o lugar aqui? – Falei enquanto pegamos a passarela que ia até a construção que deveria ser a secretaria.
- Sim... eu sempre adorei vir aqui. A lanchonete que eu trabalhava fica à alguns quarteirões daqui, e quase todo dia quando saía de lá eu vinha aqui dar uma volta pra me sentir bem.
- O lugar é muito bonito, eu adorei... É uma universidade boa?
- Aham. É um sonho meu estudar aqui. Quando vinha aqui caminhar ficava vendo os estudantes andando apressados de um lado para o outro e me via ali com eles. – Disse sorrindo.
- Tomara que seja um sonho realizado agora! – Falei tentando a animar.
- Sim! Tomara mesmo! – Respondeu Sophia, sorrindo e apertando a minha mão de entusiasmo.

Entramos no lugar e eu não me surpreendi. Muitos alunos que deixaram para o último dia para fazer suas matrículas. Gente falando alto e ao mesmo tempo.

- Será que saímos daqui até o semestre acabar? – Falei.
- Relaxa Dan, deixa comigo. – Disse e me puxou pela mão para irmos na direção dos guichês. Ela olhava de atendente por atendente como se procurasse alguém, até que avistou alguém que parecia conhecer e ficou acenando até chamar a sua atenção. A atendente ficou surpresa, e depois fez um sinal para aguardarmos. Sophia sorriu e fez sinal de positivo com o dedo.
- Presumo que você conhece ela... Espertinha. – Falei
- Aham! Conheci a Maria um dia enquanto perambulava no campus. Depois disso nos víamos sempre, antes dela ir pra casa depois do expediente. Adoro ela, é uma boa amiga. Mas desde que saí da lanchonete e me mudei eu não vim mais aqui e não falei mais com ela. Estava torcendo pra ela estar trabalhando aqui ainda.

Maria logo dispensou o estudante que estava atendendo e nos chamou. Enquanto nos aproximávamos do guichê, reparei de relance em alguns estudantes com senhas na mão nos desejando infartos ou tumores malignos. Mas como a maioria deve ser filhinhos de papai que não sabem o que querem da vida eu nem me importei muito.

- Oi, linda! À quanto tempo! – Disse Maria que quase saltou por cima do balcão pra abraçar Sophia e dar um beijo no rosto.
- Desculpa por sumir e não ter avisado, Maria... – Disse Sophia com uma cara de culpada.
- Tudo bem, linda... sei que deve ter um bom motivo. E esse rapaz, garota?
- Ah sim, esqueci de apresentar, desculpa. Esse é o Dan, meu... amigo. Dan, essa é a Maria! – Disse meio sem jeito enquanto eu cumprimentava a mulher loira de uns 30 e muitos anos.
- Prazer, Maria... Sophia me falou de você.. – Disse, pois estava sem jeito e precisava jogar a bola pra alguém.
- E ela nunca me falou de você, rapaz! – Disse com um sorriso maldoso.
- É que eu conheço o Dan faz... pouco tempo. – Disse Sophia, envergonhada.

Claro. Mesmo para uma amiga que a conhece, seria estranho se dissesse que me conheceu no dia anterior sem parecer vulgar. Talvez não ajudasse se ela dissesse que foi num programa.

- Entendo... Bom, ele é bonito! Se veio aqui buscar minha aprovação tem minha benção, garota! – Disse e Sophia ficou da cor do suéter vermelho que usava.
- Maria!! Vamos mudar de assunto... Não vim aqui hoje só pra matar a saudade do seu senso de humor. – Disse tentando recuperar sua cor clara.
- Oh, o que mais então?
- Vim fazer minha matrícula! – Disse Sophia com um sorriso de satisfeita.
- Maravilha! Que ótimo, garota! – Disse Maria realmente feliz com a notícia. – Bom, vai passando a papelada então!

Enquanto elas estavam noutro mundo trocando papéis e documentos, perguntei onde podia pegar um copo de água. Apesar do frio, o lugar ali estava quente de tanta agitação das pessoas e do ar condicionado mal regulado.

- Naquele corredor ali à esquerda. – Disse e apontou Sophia. – Traz um pra mim também, Danzinho? – Disse com um sorriso grande para o qual é impossível negar qualquer coisa.
- Tá, mas só se você prometer não me chamar de Danzinho denovo. – Falei, sinceramente.
- Ops... Ok. Prometo, Danzão! – Disse e riu sadicamente.

Desisti de argumentar e fui buscar a água. Na volta, vi que as duas estavam conversando seriamente. Não quis atrapalhar e fiquei de longe observando. Sophia olhava para baixo e Maria falava seriamente olhando pra ela. Imaginei que Sophia estava falando sobre sua mais recente empreitada profissional. Quando vi que ela estava quase chorando me aproximei.

- Tudo certo aí, minha cara universitária? – Falei tentando parecer alheio à situação.
- Ah, sim.. Tudo! – Disse ao esfregar os olhos no suéter rapidamente e estender a mão para pegar a água. Seus olhos estavam vermelhos mas logo se recuperou.
- Bom, tudo certo, linda. Só falta a propina agora. – Disse Maria se referindo ao preço da matrícula.
- Ah sim. Deixa eu ver. – Disse Sophia pegando sua carteira na bolsa e a abrindo. – Cem, Cento e cinquenta, Duzentos...

De repente se deu conta de algo e ficou imóvel olhando sua carteira. Cheguei a me assustar e demorei um pouco pra assimilar o que estava acontecendo. A verdade é que ela contava com o dinheiro do programa para pagar a matrícula. Eu tinha que fazer algo.

- Ah, Sophia! – Disse a chamando a atenção pra mim – Eu estou te devendo, lembra? – Falei e ela assimilou sem nenhuma expressão no rosto. – Tome – Disse e estendi a mão com “aquele” dinheiro que ainda estava na minha carteira.
- Oh. – Disse Sophia que ficou olhando um tempo para aquelas notas. Muito deve ter se passado na cabeça dela ali. – Obrigada, Dan. – Disse e entregou o dinheiro para Maria.
- Tudo certo então! – Disse Maria ao ir guardando o dinheiro no caixa e organizando a papelada dentro da pasta. - Você começa dia 14.
- Obrigada!! – Disse Sophia para a mulher, ao quase saltar novamente para abraçá-la por cima do balcão.
- Boa sorte, garota... Vai dar tudo certo, viu? – Disse à Sophia e depois se virou e estendeu a mão à mim. – Foi um prazer conhecer você Dan. Cuida bem dessa menina viu? Senão arranco seus ovos fora. – Disse e eu acreditei na ameaça, visto o seu olhar de sociopata ao dizê-la.
- Ok... – Foi tudo o que consegui dizer ali.

Nos despedimos e saímos do prédio. Sophia pulava de felicidade como uma criança que acabou de saber que vai viajar para a Disneylândia. Eu estava feliz também, pois sabia o que aquilo significava pra ela.

Resolvemos dar uma última volta no lago antes de ir embora.

- Me diga, que curso você se matriculou? – Perguntei, ao me dar conta que realmente não sabia.
- Verdade, eu não te falei! Me matriculei em Psicologia. – Disse com um sorriso de satisfação.
- Nossa, que legal! Sempre gostei de Psicologia também...
- É... eu adoro entrar dentro da cabeça das pessoas para tentar entendê-las. Tomara que o curso seja o que eu espero.

Algo começou a vibrar na sua bolsa. Pegou o celular e ficou olhando no visor um tempo. Pude sentir sensação que ela sentiu de “voltar à realidade” ali.

- Alô? Oi Susan... É, foi mal, aconteceu umas coisas. Tá. Tá, eu ouvi, caramba! – Se exaltou e olhou pra mim, como se suplicasse para que eu pegasse pela sua mão e pulássemos no lago gelado. – Não, eu não quero mais isso, Susan. – Disse e eu pude ouvir a mulher se exaltar ao telefone. – Olha, depois conversamos, ok? Tchau.

Desligou o celular e ficou olhando para o lago por um tempo. Respeitei seu silêncio.

- Era a Susan. – Disse sem tirar os olhos do lago.
- Susan? – Indaguei, pois não lembrava desse nome.
- Ah sim. A “Cherry”. Moro com ela... Você sabe. – Disse se referindo à tudo.
- Sim, entendo... - Falei sem ter certeza do que falar. - Quer voltar pra casa?
- Sinceramente, queria nunca mais ter que voltar pra lá. – Disse e tirou os olhos do lago, e depois colocou as mãos no rosto e suspirou.

Não soube o que dizer ali. Não havia palavras que podiam vencer a força dura da realidade.

Tudo que me restava fazer era tentar mudar a realidade.

- Sophia...
- Oi. – Disse ao esfregar os olhos e olhar pra mim.
- Por que você não vem morar comigo. Sabe, até se estabilizar denovo?

Sophia ficou congelada olhando pra mim.

- Dan... Eu... – Disse quase entrando em um colapso.

Me aproximei dela e a abraçei.

- Vai dar tudo certo, viu? Eu prometo.

Sophia chorou, pela última vez. Com a cabeça encostada no meu peito, agarrava com as unhas nas minha camisa e chorava com toda a intensidade que era possível, querendo esvaziar tudo de ruim que havia dentro dela por todo aquele tempo.

Percebemos ali que, juntos, podemos transformar a realidade.

Sophia - "Estranhos"

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

- Você não fala muito sobre você, né? – Perguntou Sophia.

Ficou um clima estranho no ar quando ela fez essa pergunta. Olhei para ela e de volta para a direção umas três vezes, enquanto nos levava à Faculdade. Gaguejei algumas palavras incompreensíveis que, se fosse eu ouvindo, acharia bem engraçado.

- Ih, perguntei algo errado? – Disse a garota, o que acabou por piorar meu estado.

Mas o que havia de tão errado na pergunta? O problema é que desde que a conheci, nada falei sobre mim. Fiquei até confuso por um momento, pois ao perceber isso reparei que no fim a garota estava andando por aí com um estranho.

Não, não era realmente verdade. O que estava se passando entre nós desde o dia anterior nos proporcionou uma aproximação praticamente diferente de qualquer outra. Nos sentíamos confortáveis na presença um do outro.

Então percebi que me perdi nos meus devaneios, pois havia se passado mais de um minuto que ela perguntou, e estava com um olhar de interrogação olhando pra mim.

- Desculpe... é que eu estava pensando em como somos estranhos um para o outro. – Acabei por responder sem pensar.
- Eu só não te conheço... mas sei que você é um cara legal... relaxa. – Respondeu a garota, o que me acalmou um tanto – E fica uma situação estranha, já que você sabe um bocado sobre mim. Só falamos sobre mim – Complementou com um fato.

Reparei que ela realmente estava interessada em me conhecer como pessoa. Eu estava despreparado pra isso, pois fazia um bom tempo que não falava sobre mim pra alguém. É fácil lidar com essas perguntas em situações sociais, mas quando é pessoal que o monstro aparece, com seus dentes afiados.

- Eu saí da casa dos meus pais à alguns anos... – Disse, sem saber ao certo por onde começar e se esse seria um bom começo - Não aguentava mais viver lá...
- O que havia de errado com eles? Te tratavam mal? – Me interrompeu, mas realmente interessada no assunto, o que até me deixou feliz.
- Não, pelo contrário... Eles me sufocavam. Eu sentia que eles se interessavam mais pela minha vida do que pelas deles.
- Apesar de nunca ter passado por isso eu te entendo... consigo ver isso acontecendo.
- Pois é... aí no fim das contas me convenci que sair de lá era algo bom.
- E foi?
- Sinceramente, eu não sei.
- Por que?
- Acho que só vivendo sozinho consegui ter uma noção de quem eu sou de verdade... apesar que acho que qualquer auto-descoberta é boa.
- Mas você se sentia solitário? Sabe, há diferença entre estar sozinho e se sentir sozinho.
- Eu era...
- E foi passageiro?
- Não... com o tempo a solidão acabou se transformando em outras sensações...

Ao falar disso vinham flashes na minha cabeça de como foi esse tempo. A grande sensação de se sentir sem propósito algum. Acabei por entender um pouco o porquê dos meus pais serem tão invasivos na minha vida.

- Me fale do seu trabalho! – Disse Sophia sorrindo, que depois segurou na minha mão ao volante e fez um carinho com o seu polegar, ao perceber que eu não me sentia bem falando sobre aquilo. Essa sua sensibilidade incrível me fez olhar pra ela e sorrir por um momento.
- Ah, meu trabalho é normal. E ganho relativamente bem.
- Tem amigos por lá?
- Mais ou menos... Me desentendi com eles faz alguns dias.

Não achei interessante na ocasião dizer à ela que foi com eles, no dia da discussão, que havia conseguido o número da Cherry.

- Humm... ei, queria te perguntar uma coisa... Posso? – Disse a garota.
- Uhum..
- Esse suéter que eu estou usando estava lá na sua casa, e não acho que seja seu... alguém mora com você?
- Morava... minha ex-namorada morava lá comigo. Saiu de lá faz pouco mais de um mês.
- Brigaram?
- Talvez você saiba mais sobre o que aconteceu do que eu. Um dia ela simplesmente foi embora.

Gostaria que isso que disse à ela fosse um desvio ou uma mentira. Não era. Realmente a Sarah foi embora sem dizer coisa alguma.

- Puxa... – Disse a garota meio sem jeito. - Ei, é ali! Chegamos...

Estacionei o carro e saímos. Antes de andarmos, ela ficou na minha frente e começou a rir.

- Ei... O que foi?
- Sabe o mais engraçado... sobre isso de não nos conhecermos?
- O que?
- Você ainda não me disse o seu nome!

Devo ter ficado de boca aberta, em formato de O, por uns 5 segundos. Então nós dois começamos a rir.

- Isso é perigoso, Sophia! – Falei, me referindo ao ‘trabalho’ dela.
- Engraçadinho.
- Bom... meu nome é Dan.
- Puxa, você não tem cara de Dan! – Disse minha engraçada companhia, e quase respondi obrigado. Ela franziu o cenho de um jeito engraçado, analisando o meu rosto e tentando encaixar meu nome à minha face – Bom, prazer Dan! - Disse conformada e me estendeu a mão.

A cumprimentei e sorrimos um para o outro. Um sorriso mútuo, agora entre conhecidos.

Então Sophia enganchou no meu braço e fomos em direção ao prédio.

Sophia - "Esperança"

segunda-feira, 19 de abril de 2010
Ouvia bem ao fundo os sons dos passos vindos de longe, ao que pareciam ser sapatos temendo seu próprio som. Era algo que desafinava a melodia que eu sentira, pacificamente e longe dali...

- Droga! - Disse uma voz ao som de um tropeço dos sapatos que antes faziam um toc-toc ritmado, quebrando de vez meu encanto. Dei um salto do sofá devido ao susto e tentei recobrar a consciência. Meu apartamento começou a tomar forma, e na minha esquerda, à dois metros da porta, vi um borrão ficar cada vez mais visível. Comecei a juntar os fatos enquanto acordava e cheguei à conclusão que o borrão era o responsável pelo toc-toc anterior e o xingamento, bem como o que me fez saltar do sofá como um gato assustado quase grudando no teto. E o borrão finalmente tomou sua forma real.

Era Sophia.

Concluí que ela planejava ir embora antes que eu acordasse, evitando ter que se deparar comigo no dia seguinte ao que havia acontecido.

- Eu... eu... eu já estou indo embora, desculpa - Disse a garota pálida e quase chorando.
- Bom dia, Sophia - Respondi, tentando não alimentar a sua culpa. - Por favor, tome café da manhã comigo. Depois você pode ir embora se quiser.

Sophia não falou nada e começou a tremer inteira, o que não era totalmente psicológico, pois ela não tinha casaco e o clima literalmente esfriou na noite passada e prosseguia assim agora pela manhã. Levantei e me aproximei dela, que não conseguia falar nada.

- Por favor - Disse e sorri, e extendi minha mão para ela. A expressão no seu rosto rosto mudou, como se parasse de olhar para mim com medo. Ela olhou para minha mão, depois para mim e depois para minha mão novamente, e lentamente extendeu sua mão até a minha. Senti o calor da sua pequena mão segurando na minha, com cada vez mais confiança e menos receio.
- Tá... - Foi tudo o que disse, mas valeu como algumas dezenas de palavras para ela.
- Deixe-me pegar um casaco pra você, está frio - Disse e sorri para ela, que acenou que sim com a cabeça e sorriu confirmando minha afirmação.

Fui até meu quarto e me lembrei de algo que evitava lembrar recentemente. Minha ex-namorada, que morou comigo por alguns meses, deixou algumas coisas suas aqui e nunca mais veio buscar, quando resolveu ir embora sem muitas explicações. Abri o guarda-roupas e encontrei um casaco de lã, um pouco maior que o tamanho de Sophia. Peguei-o e voltei até a sala.

Ao chegar lá me assustei, pois não encontrava Sophia, e logo cheguei à conclusão de que ela poderia ter ido embora. Senti certa decepção, olhando para o casaco vermelho na minha mão, mas ao me virar para voltar ao quarto vi a garota na janela no canto da sala, quase escondida. Olhava longe, como se olha quando está sentado sozinho na beira da praia apreciando as ondas do mar.

- Você me assustou, pensei que tinha ido embora - Disse, me aproximando dela. - Pegue esse casaco.
- Desculpe... é que a vista é bonita nesse lado da cidade - Disse enquando vestia o casaco aberto. - Obrigada... estava mesmo com frio - Admitiu, num sorriso avermelhado de vergonha.
- Denada... Venha comigo - Disse e fomos até a cozinha.

Sophia se sentou à mesa e eu fui procurando café para alimentar a cafeteira. Procurei no balcão geléia e torradas e coloquei-as sobre a mesa. Ficou um silêncio estranho no ar, como se ambos estivessem com medo de conversar sobre o que aconteceu. Então, resolvi encarar o problema de frente.

- Posso lhe perguntar uma coisa? - Falei.
- Hm... sim, pode - Respondeu a garota com medo do que seguiria.
- Sophia é seu nome mesmo?
- Sim, é... - Disse e ficou em silêncio por alguns instantes. - Quando estava vindo para cá, pensei em uma dúzia de nomes para dizer... Mas não consegui dizer nenhum deles quando você perguntou meu nome.
- Por que?
- É... porque não adiantaria eu fingir ser outra pessoa. Era eu vindo aqui, e não era certo comigo mesma fingir que não - Disse Sophia, que mordeu os lábios e olhou para baixo, e senti que seus olhos estavam se enchendo de lágrimas denovo.
- Calma... é que eu acho seu nome lindo, e estava pensando se era real - Disse e me aproximei dela, e encostei minha mão no seu rosto, que se levantou e olhou pra mim. - e eu quero conhecer agora quem você é de verdade.

Sophia não disse nada, mas sorriu gentilmente pra mim. Reparei em como eu ficava fascinado pelo seu sorriso, e não entendia como essa linda garota teve que chegar até onde chegou.

- Pode perguntar... eu estou bem - Disse Sophia, me surpreendendo.
- Eu... gostaria de saber a sua história... Mas está tudo bem se você não quiser falar sobre isso - Disse e levei a cafeteira até à mesa, enchendo então as duas xícaras e me sentando junto à ela.
- Está tudo bem... Bem... minha mãe morreu quando eu tinha sete anos, e então fui obrigada a morar com meu pai. Ele... - Disse e então parou, como se juntasse forças para combater alguma coisa enquanto adoçava seu café. - ele começou a beber depois que ela morreu, e batia em mim às vezes. Quando eu tinha dezesseis anos, ele tentou abusar de mim, e eu resolvi que era hora de sair daquela casa.
- Eu... sinto muito - Falei, surpreso com o que ela contara.
- Aí fui morar com uma prima e consegui um emprego em uma lanchonete. Estava tudo certo até meus dezoito anos. Foi quando ela se mudou para a casa de um cara e eu fiquei sozinha. Não conseguia nem pagar o aluguel.
- E como... - Disse sem pensar e me arrependi.
- Como eu virei uma garota de programa? - Disse Sophia com um ar exaltado.
- Me desculpe... me desculpe mesmo, não é da minha conta.

Senti um frio, dessa vez psicológio, em nossa volta. Sophia ficou quieta, enquanto olhava para o lado e tomava o café quente. Pensei que havíamos voltado à estaca zero na conversa.

- Você está sendo legal comigo e eu estou sendo áspera. Me desculpe - Disse e olhou para mim. Então, como se tivesse lembrado de algo, procurou seu celular. - Droga, estou atrasada...
- Atrasada? - Perguntei.
- Sim... eu tinha que ir nessa manhã me matricular...
- Onde?
- Em uma faculdade... é o último dia. Mas deixa pra lá, não vai dar tempo, é do outro lado da cidade.

Eu senti nela um ar de tristeza e decepção. Aquilo era muito importante para ela.

- Vamos, eu te levo lá - Disse e me levantei, estendendo a minha mão novamente até ela.

Sophia olhou para mim como se não acreditasse no que disse. Senti como se ela tivesse alcançado suas esperanças novamente. A senti feliz.

- Obrigada...

Ela pegou na minha mão e se levantou. Me virei para procurar minhas chaves e soltei sua mão. Dois ou três passos seguintes, me surpreendi de uma forma incrível. Ela pegou na minha mão novamente e prosseguiu segurando-a, sem dizer nada. Foi natural, algo vindo dentro de si que move o corpo.

E assim fomos, de mãos unidas, até o meu carro.

Em direção às esperanças de Sophia.

Sophia - "Personagens"

sábado, 27 de fevereiro de 2010
Cheguei em casa pensando em tudo e em nada ao mesmo tempo. Não era um dia que eu me orgulharei de ter tido.

Pensei em como eu conseguia fazer as coisas errado. E não importa a intenção se os fins são desastrosos, certo? No final, não são somente chefes no trabalho que só querem resultados: Família, amigos e relacionamentos não são tão diferentes assim. E como no trabalho, podem te demitir. Foi o que fizeram, com o tempo.

Eu sempre tentei ser um herói e ajudar os outros, mas ninguém parecia se importar quando eu conseguia, mas nunca esqueciam quando eu errava. Chega de tentar.

Já que estava fazendo tudo errado, resolvi estragar mais um pouco as coisas. Peguei no bolso da minha camisa um telefone que um ex-amigo tinha me passado. Lembrei da nossa conversa, uma semana atrás...

- Ela é demais, meu! E não cobrou tão caro assim, hahaha! - Falou, enquanto todo o resto do pessoal caiu em gargalhadas na mesa do bar.
- Você não sente vergonha não? - Respondi, quebrando o clima de risos na mesa.
- Você se acha o cara, não? Vamos falar sobre você então. - Disse, exaltado. Me bombardeou com histórias, fatos da minha vida e meus erros, inspirado pelas várias cervejas que havia tomado.

Realmente, eu não era o cara.

~

Liguei.

- Alô? Hm... Você é a Cherry? - Perguntei, rapidamente antes que eu ficasse mudo ao telefone.
- Ela não está... Você pelo jeito está interessado nos serviços de "acompanhante", certo?
- Sim. - Respondi. Para ela e para mim mesmo.
- Olha... tem uma garota nova aqui, o que você acha?
- Pode ser... - Respondi, pensando se deveria perguntar alguma coisa, como atributos físicos ou pelo menos o nome. Eu não sabia mesmo o que estava fazendo. Dei o endereço e então desliguei.

Esperei por mais de uma hora, pensando em como o fundo do poço era um lugar diferente. Bebi algo para facilitar as coisas também.

Escutei alguém batendo na porta. Peguei meu script imaginário de falas que montei e fui em sua direção.

Confesso que eu esperava uma garota de roupas coloridas e cabelo forçadamente tingido, segurando na parede e olhando para o olho mágico pelo lado de fora, enquanto mascava chiclete de boca aberta... O que seria nojento quando falasse "Ei cara, apê legal o seu!".

Errei. Olhei pelo olho mágico e vi uma garota linda de cabelo liso e castanho, sem muita maquiagem e um pouco menor que eu. Devia ter uns 20 anos e não segurava na parede nem mascava chiclete. Somente olhava para o chão, pensando bem longe.

Abri a porta.

- Ei... oi! - Disse, assustada.
- Olá... Vamos entrar? - Perguntei, seguindo o meu script

Ela não se mexeu quando eu perguntei se queria entrar. Somente o fez quando eu abri bem a porta e saí da frente.

Ofereci algo para beber e ela não aceitou. Ficou parada de pé evitando se mexer, então sentou-se no sofá quando eu disse que podia.

- Qual o seu nome? - Perguntei.
- Eu... sou a Sophia.

Tive a certeza que ela ia falar um "nome profissional" ali pra mim, mas exitou e disse o seu nome de verdade. Ficou um clima estranho no ar, então ela seguiu o seu próprio script.

- Desculpa... mas a gente pode terminar aqui logo? - Perguntou.

Negócios são negócios, certo? Fizemos então o que ambos estávamos ali pra fazer. Parecíamos robôs, seguindo o que estava programado. Mas eu podia sentir seu coração batendo rápido, então fiquei mais culpado pois ela era de fato um ser humano. Terminamos, e senti um certo ar de conformismo em ambos.

- Eu já volto, minha carteira está lá na sala. - Falei, enquanto levantava. Mas na verdade eu queria sair dali o quanto antes porque sentia vergonha do que tinha feito.

Quando voltei, esperava que ela estivesse já arrumada pra sair, embora estivesse se passado somente uns dois minutos.

Foi quando eu joguei meu script fora.

Ela estava chorando, na cama ainda. Chorava muito mesmo, segurando o rosto com as mãos. Fiquei sem saber o que fazer, então fiz o que eu senti que devia. Sentei do seu lado.

- Desculpa... mesmo! Eu prometo que eu já vou embora! - Disse, chorando cada vez mais.
- Não, está tudo bem... - Respondi, sem saber direito no que dizer. Como ela iria confiar nas palavras de alguém como eu?

Aquilo foi familiar. Me senti decepcionado, pois me senti impotente.

- Vai ficar tudo bem. - Foi tudo o que consegui falar, enquanto eu acariciava o seu rosto e seus cabelos.
- Me... desculpa... - Disse, quase sem forças, tomadas segundos atrás pelas lágrimas.

Adormeceu.

Fui para o sofá da sala, pensando em Sophia, no dia seguinte e nos tempos que eu ainda sonhava em ser um herói nesse mundo. Para isso, eu não deveria ser nenhum personagem nem seguir algum script, deveria ser eu mesmo.

Tinha mais uma chance de fazer as coisas certo.