Mostrando postagens com marcador Louis. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Louis. Mostrar todas as postagens

Yu - "Espadas"

sexta-feira, 13 de maio de 2011
Já estamos à mais de dois dias nessas ruínas sufocantes. Precisávamos treinar um pouco nossas habilidades e caçar algumas recompensas que os mercenários evitam por ter que adentrar aqui. Inúmeros labirintos e criaturas que ficam mais fortes a cada nível que passamos.

- Esse lugar já está me entediando – Diz Yu.
- A mim também. Mas veja bem, assim eu posso melhorar minhas habilidades com o arco e você pode melhorar a sua magia.
- Você fala isso porque não sabe usar magia. Isso cansa pra diabo.
- Somos jovens, parceira! E ainda temos poções – Respondi, referindo-me às poções que trazem de volta as forças mágicas, que são um mistério para mim.
- Mas não temos mais vinho. Não consigo tomar essas poções sem misturar, são horríveis.
- Isso um dia vai te matar – Respondo, com ar de reprovação.

Ouvimos barulhos à nossa volta e nos deparamos com os corpos apodrecidos que havíamos visto minutos atrás. Só que agora estão de pé, andando com dificuldades e sem vida, movidos por algo frio. Esperaram nós chegarmos num lugar onde eles estivessem mais numerosos para atacar.

- Que ótimo, mais zumbis. Odeio desperdiçar minha magia neles – Diz Yu.

Ela pega seu cajado nas costas e o segura com uma mão. Com a outra, estende a palma em volta da grande pedra mágica que fica na sua ponta, sem encostá-la, que vagarosamente se ilumina.

- Você tem energia suficiente? – Pergunto, ao largar nosso saco de mantimentos no chão e a pegar meu arco nas costas e logo depois uma flecha.
- Não sei, enquanto isso me cubra.

Aceno com a cabeça e olho na nossa volta. Eles se aproximam em grupos de três ou quatro, por cada uma das seis passagens que dão acesso ao nosso recinto.

Lanço a primeira flecha no zumbi que está mais perto, buscando acertar sua cabeça ou seu peito. Não tenho muita habilidade ainda com arcos mas consigo uma flechada certeira no crânio da criatura, que cai sem “vida” no chão.

- Boa! Agora acerte mais trinta dessas que eu vou dormir aqui um pouco enquanto isso – Diz Yu, sarcasticamente.

Resolvo não a responder, e sim me concentrar nos zumbis. É fato que são numerosos e que Yu talvez não tenha energia à tempo para me ajudar a acabar com eles. Eu conseguiria sem problemas matar a todos se não tivesse que protegê-la também, pois está vulnerável enquanto tenta se concentrar.

Vou lançando flecha a flecha, sempre buscando acertar a criatura mais próxima.

Vejo que duas se aproximam de nossas costas.

- Yu, abaixa! – Digo, e lanço duas flechas seguidas e certeiras nas duas cabeças.

Ela é teimosa pra dizer “obrigada”, portanto só pisca pra mim com o olho direito num sorriso maldoso.

Depois de mais algumas flechas vejo que as criaturas vão diminuindo, mas estão mais próximas. Busco flechas nas minhas costas e vejo que estão acabando. Yu vê e faz um sinal de reprovação.

- Você deveria ter ficado com aquela lança, estava ficando bom com ela. Não entendo por que você sempre troca de arma quando está começando a dominar alguma – Diz Yu.
- Gosto da ideia de dominar várias armas. Isso me dá bastante vantagem, já que não posso usar magia.

Busco mais flechas e vejo que só restam três. E há ainda uns seis zumbis.

- Lou, cuidado! Ali em cima!

Olho acima e vejo um zumbi que estava em um piso superior, que encontrou espaço num buraco para o nosso para nos surpreender. Ele salta em minha direção, não me dando tempo para buscar uma flecha. Me derruba e segura com uma mão no meu cabelo e com a outra tenta cravar suas unhas afiadas no meu pescoço. Consigo segurar o seu braço podre mas tenho dificuldades para me livrar dele.

- Chega, não tenho tempo pra isso – Diz Yu.

Ela larga seu cajado e corre em minha direção, desferindo um forte chute no pescoço do zumbi, com a sua bota pesada. A criatura cai sem vida ao chão.

- Obrigado. Achei que você tinha dormido mesmo – Digo, ao pegar na sua mão para me apoiar e levantar.
- Você que não deu conta dele – Responde Yu.

Restam seis zumbis.

- Tenho três flechas. Você dá conta daqueles três? – Pergunto.
- Dou conta dos seis, mas você ficaria bravo – Diz, ao rir maldosamente.

Ficamos de costas um ao outro, e de frente para os dois grupos de três zumbis. Busco a primeira flecha e lanço-a no peito do primeiro, que trepida e cai ao chão. Ao pegar a segunda flecha sinto Yu ir na direção do seu grupo de criaturas. Me preocupo, mas preciso confiar nela.

Lanço a segunda flecha em direção ao peito de outro zumbi, mas acabo acertando perto do ombro. Por sorte, ele acaba por cair desacordado.

Ouço atrás de mim o barulho de ossos sendo quebrados. Fico preocupado e olho para trás. Vejo Yu utilizando o crânio de um zumbi para quebrar o crânio do outro. Me tranquilizo um pouco.

Olho à frente novamente e, por fim, busco a terceira flecha e lanço-a na última criatura.

Erro, por alguns centímetros. Minha inexperiência, ironicamente, me pegou na última flecha.

Sem muita escolha, parto na direção da criatura com a intenção de utilizar o arco como uma arma de combate próximo. Ele é feito de uma madeira forte e relativamente pesada, mas não com esse propósito. Porém, tenho experiência o suficiente com lanças e bastões para saber que consigo utilizá-lo dessa forma sem quebrá-lo.

Lembrando dos golpes que utilizava com bastões há alguns anos, acerto um golpe da esquerda para a direita no rosto da criatura para desnorteá-la, e depois aproveito o formato curvado da ponta do arco para enganchar na sua perna e derrubá-lo.

Com a criatura no chão à minha mercê, utilizo a outra ponta do arco para atravessar seu crânio.

Quando pondero em pensar “acabou”, ouço um barulho atrás de mim. Consigo sentir aquele cheiro podre se aproximando rapidamente, com suas unhas à centímetros de mim buscando meu pescoço. Fui pêgo – penso – pelo zumbi no qual acertei uma flecha no ombro, e achei que tinha perecido.

Não há tempo de reagir. Só fecho os olhos.

E ouço o barulho do ar sendo rasgado e um baque logo atrás de mim. A mão do zumbi estava tão próxima que acabou deslizando no meu pescoço e descendo pelas minhas costas.

Me viro e vejo o zumbi sem vida, empalado pela mão de Yu na altura do coração. Olho-a por trás dele e sinto um frio intenso, mas passageiro. Uma sensação ruim.

Yu larga o corpo da criatura no chão.

- Obrigado Yu, você me salvou – Agradeço.
- Não me agradeça, só tome mais cuidado Lou... – Responde, e fica observando sua mão suja por um tempo, com certa confusão.
- Você é muito forte e rápida, parceira. Já lhe disse que deveria usar espadas.

Yu olha para o lado com uma feição de desprezo e raiva. Vai em direção ao seu cajado que havia largado ao chão. Pega-o, e fica por um tempo de costas para mim.

- Eu odeio espadas. Nunca colocarei a mão em uma.

Yu - "Inocência"

domingo, 10 de abril de 2011
Esse conto é uma homenagem do Blog Noogênese e do autor, às crianças da Escola de Realengo, no RJ; Vítimas de um Monstro

In Memoriam

~

Paramos em frente à grande muralha invisível que delimita as fronteiras de Lunna, a grande floresta, território dos Elven.

- É aqui então... – Diz Yu, olhando a fileira de árvores que dá início à floresta densa.
- Ele disse que sim. Só não sei se deveríamos confiar nele – Digo, me referindo ao Sem Nome.
- É o melhor que temos. E algo me diz que ele não mentiu.
- Yu, ele quase nos matou – Digo e olho em sua perna machucada, depois em meu braço enfaixado com um pano vermelho. – Ainda não entendi nem porque ele nos ajudou depois de tudo.
- Não importa. Não agora – Diz minha parceira.

Me dou conta que minha falta de sentimentos mais uma vez me impediu de reparar nos dela e no que significava estarmos ali.

- Certo, vamos – Digo e pego na sua mão. Ela segura forte na minha e sorri gentilmente.

~

Andamos por mais de um dia floresta adentro. Estranhamente, encontramos poucos perigos. No fim, só algumas criaturas com fome.

- Isso está estranho – Diz Yu.
- Sim. Achei que seria mais perigoso. Pelo menos temos mais liberdade para procurá-lo.

Seguimos adiante e paramos. Senti uma presença estranha por perto e fiz um sinal para Yu parar de andar. Nos olhamos e prestamos atenção no silêncio total do ambiente. De repente, pudemos ouvir um extenso assovio que soava e ecoava na floresta como o belo canto de um pássaro.

- Tem um Elven por perto – Digo e Yu balança a cabeça positivamente.

Anos atrás vivemos por um tempo com uma tribo de Elven, em outro lugar. Esse assovio é o sinal que usam para chamar ou procurar uns aos outros à grandes distâncias.

- Vamos procurar ele – Diz Yu e não entendo -. Algo me diz que deveríamos e que ele não está querendo nos fazer mal – Explica antes de eu falar algo.

Confio nos seus instintos e a sigo. À frente ouvimos novamente o assovio, e nos guiamos pela sua direção. Continuamos andando e o assovio soa mais próximo, até que cessa repentinamente ao ouvir o barulho que fizemos pisando nas folhas que cobrem o chão.

- Quem está aí? – Diz uma voz bonita e calma, mesmo ao falar alto, do Elven que esperávamos encontrar.

Prosseguimos com calma para ele não achar que somos uma ameaça e o encontramos. Ele é alto, com pele clara nos tons da floresta e tem cabelos claros e orelhas com as pontas maiores do que a dos homens, como todos da sua raça. Segura um bonito arco e flechas de pontas afiadas como uma lança, feito das árvores de maior qualidade da floresta, que homens sequer podem encostar.

- Olá – Digo com as duas palmas das mãos levantadas. Yu segue do meu lado sem segurar no cabo de sua espada, sinalizando que não quer lutar.

O Elven olha bem para nós dois e guarda o arco em suas costas.

- Quem são vocês? – Diz.
- Estamos procurando um assassino de crianças que se esconde em Lunna – Yu diz, sendo direta como sempre é.

O Elven se surpreende e fica de boca aberta olhando para nós. Em seguida olha para o chão por um tempo.

- Eu também estou – Diz e nos surpreende: – Ele sequestrou a minha filha.
- Como?? – Diz Yu exaltada.
- Ele conseguiu entrar no nosso vilarejo durante a noite e levou a minha filha – Diz e levanta a cabeça, olhando por entre os feixes de luz que rasgam por entre as folhas das árvores.
- E como ele conseguiu fazer isso? – Indago – Vocês conseguem perceber uma ameaça na floresta de longe.
- Não sabemos ainda como.
- E o resto da tribo? – Pergunta Yu.
- Se recusaram a me ajudar – Diz e nos surpreende novamente. – Como ninguém viu, todos a consideram somente desaparecida. Como esse monstro tem causado muitos problemas no seu reino dos homens, o povo da floresta não quer interferir.

Yu se exalta.

- Tolos! Como podem virar as costas à sua raça??

O Elven desvia o olhar.

- Tudo pelo bem do povo da floresta – Digo e o Elven olha para mim e balança a cabeça positivamente.
- O máximo que fizeram por mim foi me deixar ir atrás de minha filha por minha conta – Diz o Elven.

Ficamos por um tempo em silêncio.

- Como é o seu nome? – Pergunto.
- Nahky... – Responde o Elven.
- Eu me chamo Louis e ela é a Yu... Bem, Nahky, o que acha de o procurarmos juntos?

Nahky nos olha e o vejo ponderar suas lições que aprendeu sobre não confiar nos homens.

- Obrigado – Diz, ao se dar conta que lições mais recentes o fizeram ponderar sobre a confiança em sua própria raça.

Seguimos, em busca do monstro.

~

Andamos por mais um dia e meio na imensidão da floresta, quase todo o tempo em completo silêncio. Yu e eu somos acostumados a muitas vezes andar por muito tempo sem dizer nada. O silêncio que criamos muitas vezes é confortante, e não agressivo; O conforto que sentimos na presença um do outro é algo inexplicável.

Nahky é um Elven diferente de outros que já vimos. Em tão pouco tempo nos sentimos seguros na presença dele, tanto que o confiamos a vigília por um tempo na última noite enquanto dormíamos, pois estávamos esgotados do nosso último combate e a sua raça pode ficar dias sem dormir.

- Vocês conhecem alguns segredos da floresta – Diz Nahky, quebrando o silêncio.
- Sim, vivemos por um tempo com uma outra tribo Elven – Respondo.
- Qual tribo?
- Os Lann.

O nosso companheiro Elven fica surpreso.

- Curioso o fato de os terem recebido bem entre eles – Diz o Elven.
- Não foi exatamente assim... – Interrompe Yu.

Nahky se prepara para dizer algo e subitamente pára. Ele sente algo. Eu também sinto. Yu, por sua vez, nos olha com certa confusão. Nahky, rapidamente e sem dizer nada, parte em direção à fonte do pressentimento, e o seguimos confiando nos seus instintos.

Chegamos em uma pequena clareira, um lugar mais aberto e com menos árvores.

À frente vejo uma criança Elven jogada ao chão.

Na sua frente, de costas para nós, uma criatura levantada diante sua vítima à mercê. Se parece com um urso, pelo tamanho e pela pelagem do seu corpo.

Yu, ao ver aquela imagem, fica estática como à muito - muito - tempo eu não via.

Nahky corre e salta com precisão em direção à um galho de uma árvore. Com uma coordenação impressionante, se impulsiona no galho e pega seu arco e uma flecha em suas costas, à tempo exato de encontrar o momento em que seu corpo paira inerte no ar com o ângulo perfeito para poder lançar com precisão uma flecha na criatura.

A criatura percebe o ataque e salta para trás, sem conseguir evitar que a flecha raspasse no seu rosto.

Estranhamos a maneira com que a criatura saltou, se jogando de costas e impulsionando outro salto com seus braços de forma a cair perfeitamente de pé. Sua agilidade certamente não era a de um urso.

Nahky chega ao chão e corre em direção à criança.

- Nadja! – Diz e checa se sua filha ainda vive.
- Nahppa... – Diz a criança fraca e machucada, mas viva.

Finalmente conseguimos ver o que era de fato o monstro.

Era um homem.

Um homem selvagem que vestia a pele de um urso tal como um manto, cobrindo a parte de trás do seu corpo e a parte de cima da cabeça com a pele da cabeça do animal.

- Enfim um Nnah que se importa com o seu próximo – Diz a o homem selvagem, e eu vou em direção à Nahky e sua filha.

O Elven olha com uma raiva não convencional à sua raça e lança outra flecha na criatura. Ela desvia e logo que olha à frente novamente vê o Elven desferindo um golpe utilizando a lâmina afiada do seu arco como uma lança. A criatura recua sem ter se afetado pelo golpe e se afasta evitando os golpes que sequem sem parar em meio à selvageria do Elven. Nahky enfim acerta-o impulsionado um golpe certeiro de baixo pra cima no seu peito, jogando-o para trás tal qual foi quando levou a primeira flecha.

Nahky percebe que a criatura vai cair no chão e salta em sua direção, com a intenção de utilizar a lâmina do seu arco para empalar o monstro mortalmente. A criatura surpreende-nos e consegue pegar impulso e equilíbrio com suas pernas ao chão, e mergulha para cima com um golpe com suas duas garras afiadas no peito do Elven, pêgo desprevenido e lançado bruscamente em direção à uma árvore. Esse ataque é único, pois consigo sentir a energia que ele usou para tal.

Olho para Yu para pedir ajuda e vejo que ela continua estática. Pego Nadja nos braços e vou na direção de Nahky para checar o seu estado. Não estava muito bem, o ferimento que preenche todo o seu peito é feio, mas não mortal.

Deixo os dois no chão e coloco minha garra negra, pronto para enfrentar sozinho o monstro, ainda com meu braço machucado pela luta anterior.

- Lou, espere. – Diz Yu.

Ela saiu do transe e vem na nossa direção.

- Proteja Nahky e Nadja, deixe-me enfrentá-lo – Diz e eu a olho pronto para discutir – Por favor, Lou – Suplica Yu.

Pondero e acabo aceitando a situação, sem muita escolha. Pego Nadja nos meus braços levo-a até uma árvore próxima para encostá-la; e volto e trago Nahky com certa dificuldade pelo meu braço machucado e os reúno, afastados de Yu e o monstro.

Yu olha fixamente para a criatura.

- Por que? Por que as crianças? – Pergunta.

O homem selvagem gargalha.

- Esse mundo é podre mulher Ha-ha-ha... Estou fazendo um favor à elas. Estou preservando sua inocência antes que elas sejam corrompidas pelo mundo.
- Você não tem o direito de fazer isso – Responde.
- E que direito os homens têm de criar sua prole para a guerra? E por vezes, em nome de guerras aos deuses – Diz o monstro, e Yu dessa vez não responde.
- E os Elven, o que eles têm a ver com isso? – Digo, interrompendo-o.
- Os Elven são tão podres quanto os homens. Viram as costas para sua própria raça, por medo de sair da sua floresta feliz e se envolver com os homens e o resto do mundo. Peguei essa criança só para ver o que eles fariam. Não me surpreendi, o resto dos Nnah fizeram nada.
- Chega – Diz Yu.

Ela pega sua espada prateada na sua cintura. Os feixes de luz que transpassam as árvores rebatem nas escrituras gravadas na lâmina.

- A inocência das crianças – Prossegue – São a única chance que temos de salvar nosso mundo. Não importa qual a raça; Ao arrancar a vida de uma criança, você destrói tudo o que ela poderia ser; Um herói ou um vilão; Um homem ou um monstro. Destrói todos os seus sonhos, e tudo que ela poderia fazer pelo mundo.

O homem selvagem vestindo pelo de urso não responde.

- Você vai morrer agora - Yu diz suas últimas palavras ali.

Ela corre segurando com as duas mãos a sua espada; O monstro não recua, e sim vem em sua direção, e salta com suas garras prontas para atacá-la. Yu vira a lâmina em sua direção e usa uma técnica antiga para emitir um brilho intenso para desorientar a criatura, que se perde no seu salto e acaba encontrando um golpe certeiro no seu peito, de baixo para cima, no mesmo lugar onde Nahky havia o atacado. Ela não diz nada, mas eu sei que esse golpe foi por ele.

A criatura cai ao chão e emite um grito alto e doloroso.

Yu olha-o de forma apática, e caminha em sua direção para dar um fim em sua vida. Inesperadamente, a criatura agilmente salta do chão em sua direção, utilizando um golpe com sua garra.

Yu salta para trás, mas não consegue evitar que sua perna já machucada seja atingida. Ela cai ao chão segurando o ferimento aberto em sua perna.

Não grita nem chora. Nunca o fez.

- Yu! – Grito e me preparo para ir ajudá-la.
- Não! – Diz Yu, me olhando com uma expressão de raiva.

Volto o olhar à criatura e a vejo ficar de pé com dificuldades, pois o seu ferimento foi quase mortal.

- Você é forte, mulher. E já que gosta tanto dessas crianças, vai se juntar à elas agora – Diz o monstro.

Ele se agacha, e põe suas duas garras ao chão. Consigo sentir a energia ali, tal qual foi quando atacou Nahky.

Yu se levanta com dificuldades também, pelo ferimento da sua perna. Levanta a sua espada e passa a mão nas escrituras de sua lâmina prateada, sussurrando palavras de uma língua ancestral.

O monstro salta com uma velocidade tão grande que podemos ouvir o som do vento sendo rasgado. Yu segura a espada, e salta também em sua direção impulsionada somente por uma perna.

Sua espada emite um brilho tão intenso que cega à todos nós.

Só ouço Yu gritar.

E o som magistral de um trovão que ecoa em toda a floresta.

~

Demoro algum tempo para recobrar meus sentidos, e minha visão ainda está embaçada. Só ouço o barulho de algo sendo cortado. Me levanto e enquanto minha visão volta ao normal vejo Yu arremessando pedaços do monstro e os decepando com golpes de espada.

Deixo Nahky e Nadja, desacordados, e vou na direção de Yu.

Depois de mais três golpes, ela cessa.

Chego ao seu lado, olho à frente e me deparo com o monstro despedaçado ao redor. Yu se rende à dor na sua perna e desaba ajoelhada ao chão... Me agacho do seu lado para segurá-la e pela primeira vez em todos esses anos, a vejo chorar. Ela se abraça em mim e apóia sua cabeça em meu ombro, soluçando em meio às lágrimas.

Olho à frente novamente os pedaços do monstro.

Nem preciso contá-los.

Sei que são trinta.

O Sem Nome - "Quem sou eu?"

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

­­Já perdi a noção de quanto tempo eu estou andando, mas minhas pernas aparentemente têm certeza absoluta. Certamente já faz algum tempo desde que comecei a perambular, e sinceramente os motivos que deram início à isso hoje não fazem mais sentido. Eu não sou mais aquela pessoa.

Então, a pergunta é: “Quem sou eu?”.

Ninguém.

Esse é o segredo da minha sobrevivência, seja lá quais julgamentos isso me traz. Eu não tenho um nome. Constrastando isso, eu mudo a minha aparência ao avesso quando tenho vontade. Não diria que sou um camaleão que se camufla pra sobreviver. Considero a mim mesmo um erro que teve sua hora para ser corrigido, mas que esse tempo de ser eliminado já passou. Aqueles que gostam de blasfêmia me consideram um agente do caos ou um mercenário sujo – sendo que considero o último um ultraje, pois trabalho pra ninguém.

Caos. Essa é uma palavra confortável de se ouvir, embora algo dentro de mim não deixe que isso se contextualize por completo, pois traz a sensação de fazer parte de algo, mesmo que o próprio Caos. Eu não tenho regras, posso ser qualquer pessoa, desde que a situação me demonstre curiosidade, interesse ou uma agitação interna.

Não ando buscando um sentido. Não há sentido; portanto não há busca. Talvez eu só goste de andar e queira deixar cicatrizes pelo caminho

~

- O que é isso? – Penso comigo mesmo.

Estou sentado em uma pedra à alguns metros da estrada, na frente de uma fogueira recém acesa, contemplando o silêncio. Silêncio esse que foi quebrado por uma agitação que fez meu coração ficar inerte e me deixou com os pés formigando por alguns segundos.

- O que é isso? – Penso novamente. Nunca senti algo parecido em toda a minha vida.

Algo grande está vindo. Consigo sentir uma única força, que tem algo certamente bizarro em si. É como se tivesse duas faces, que conseguem coexistir em harmonia no mesmo lugar. Isso certamente é bizarro. Não estou entendendo coisa alguma. Consigo sentir, ler e interpretar essas forças poderosas e invisíveis que existem no mundo, mas isso que sinto agora é novo e único. Preciso ver com meus próprios olhos.

Levanto, pego as minhas coisas, coloco as duas baínhas das espadas nas costas e começo a andar na direção da força, curioso com o que deve ser. Já vi essas forças se manifestarem em criaturas poderosas ou elementos da natureza. E às vezes pessoas, embora seja mais raro e sempre algo instável.

Paro de andar. A força me sentiu. Por experiência sei que não adianta tentar ficar oculto, somente posso esperar. Uma vez que essas forças me sentem é praticamente impossível perder o rastro. Bom, eu não tenho interesse em fugir mesmo, só perco o fator surpresa.

Ouço barulhos pela grama alta atrás de um pequeno morro. Então a presença some e eu fico preocupado.

- Quem é você? – Diz uma voz feminina e forte atrás de mim.

Olho pra trás e perco o ar. E pela primeira vez desde que eu comecei a andar, fiquei assustado e surpreso com o que vi. Uma mulher e um homem, que conseguiram me enganar à pouco.

A mulher é uma ruiva, com pele clara como a neve e olhos acinzentados, sérios e profundos. Veste uma armadura escura mas forte e tem uma bonita espada prateada na cintura.

O homem tem pele clara – mas não tanto quanto a ruiva -, cabelos longos e negros e olhos verdes, determinados mas longínquos. Veste uma armadura leve e azulada, tem uma arma estranha nas costas e está colocando uma garra escura na mão esquerda.

Porém, o que me assustou não foram os dois. E sim a coisa bizarra que flutuava acima deles. É algo que se assemelharia com um anjo, mas com uma asa branca e angelical e a outra negra e demoníaca. Tem longos cabelos castanhos claros meio laranjados, olhos foscos e um corpo cheio de cicatrizes. Não tem boca ou orelhas. Certamente não se parece nem um pouco com os anjos das histórias para crianças.

O que esses três – ou talvez seja melhor esses dois – fazem aqui? São experientes, pelo jeito que me sentiram e me surpreenderam pelas costas. Sinto uma afinidade muito grande entre eles. Talvez um casal. Ou irmãos.

Algo estranho é que agem como se não soubessem da presença do “anjo” ali. Será que não sabem? Bom, no fim isso não faz diferença, já que essas forças vivem em um plano diferente do nosso – só sua energia transpassa para esse mundo. O que esse anjo faz com eles? Eu nunca havia visto com tamanha clareza de detalhes uma força dessas no nosso mundo. Ele deve ser realmente fenomenal para conseguir transpassar para cá com tanta intensidade – ou talvez o seu mundo seja tamanho entediante.

Os dois parceiros olham um para o outro por alguns segundos, depois olham para mim novamente.

- Eu perguntei quem é você – Repetiu a ruiva.
- Deixe esse homem estranho, Yu. Temos mais o que fazer do que perder tempo aqui – Diz o homem.
- Não. Ei, o que você sabe sobre a floresta de Lunna e as mortes de crianças?

Ótimo.

- Sei o suficiente – Respondo.
- Então diga – Reiterou a mulher, Yu.
- Não.

A mulher segura com força o cabo da espada, e me preparo para um ataque, e então larga depois que o homem segurou no seu braço. Os dois se olharam por um tempo novamente.

- Vamos, Lou. Ele não sabe nada.

A mulher se virou a começou a andar, e o homem fica um tempo me olhando, até que se vira para ir atrás dela.

Corro e salto na frente deles.

- Não, vocês não vão.

Os dois se surpreendem. Yu pega a sua espada prateada e Lou prepara sua garra e segura a arma estranha com a mão direita nas costas. O anjo estica as suas duas asas distintas e segura nos ombros dos dois por alguns segundos. Posso ver a energia pura fluindo e coexistindo.

Eles são únicos e eu preciso testá-los.

Pego as duas espadas curvadas nas costas e vou na direção dos dois – ou três.

Louis - "Preto e Branco"

domingo, 8 de agosto de 2010
Me traz lembranças nostálgicas ver todos eles juntos assim. Todos esses olhares fixos e concentrados, em um só ponto. Um pensamento coletivo e poderoso.

A união de fato traz a força.

Mas e força de vontade solitária da vingança?

Eu já estive do lado oposto dessa linha imaginária que separa o preto do branco. Na realidade, eu não considero esses lados tão opostos assim. Somos iguais que pensam diferente no final das contas.

Olhando pelo meu lado é uma batalha desleal. Sim, eu sou um monstro capaz de destruir todos eles. Por acaso, esse é o motivo de todos estarem aqui. Mas estou sozinho. O fato é: Não é o bem que sempre vence o mal, mas sim que os maus naturalmente são solitários e acabam derrotados pela força coletiva do bem. Um salve às histórias infantis para dormir.

Dois deles correram em direções opostas tentando me confundir. Ver essa sincronia dos movimentos deles faz meu coração bater mais rápido, e não é de medo. É de emoção. Emoção de ver um monstro na minha frente de igual poder ao monstro que vejo no espelho ou no reflexo de um lago.

Mas eu não sou tão simples assim.

Levantei meus braços e surgiram do chão chamas como se fossem tentáculos de um monstro dos mares, o pesadelo de qualquer marinheiro. Um dos guerreiros apressados sucumbiu à um golpe de fogo violento, e o outro venceu pela agilidade. Mas ficou congelado olhando para mim como se eu fosse o próprio Diabo evocando as chamas do inferno e os atacando com o meu tridente.

Será que ele estava tão errado assim? Não o culpo, pois essa imagem resolveu viver na minha mente à muito tempo.

- Você vai morrer, seu desgraçado! – Disse o guerreiro de capa cinza. Admito que isso me afeta e dói mais do que quaisquer golpes de espadas, lanças, machados ou rajadas de flechas. Estou conformado com o caminho que decidi seguir, mas será o bastante? Um motivo e uma razão são coisas distintas.

O fato é que até agora eu estou somente me defendendo, repelindo todos eles. Admito que não queria ter matado o primeiro guerreiro apressado, mas a força mística que eu evoco em batalha não é controlável tanto quanto eu gostaria.

Então o tempo resolveu parar.

Existia um guerreiro entre eles que era diferente do resto. Quando todos estavam abalados e com olhares cheios de sentimentos diferentes, ele continuava apático. Enxerguei nele algo familiar. Via à mim lá na frente, vestindo uma armadura brilhante e com um lenço vermelho amarrado ao braço direito.

Então eu parei. Sim, eu parei. Quando eu abaixei meus braços, as criaturas feitas de sombra que estavam distraindo os guerreiros sumiram. A barreira de gelo que ergui pra me proteger começou a rachar.

Tudo isso porque eu custei a lembrar o porquê estou aqui. Custei a lembrar dos motivos pelos quais eu resolvi acabar com tudo. Quando olhei pra ele, me perguntei porque mesmo alguém como eu podia estar lá do outro lado sem ter sucumbido. Ele não estava lutando pela coletividade e pelos gritos de guerra de um time. Ele estava lá por si mesmo e suas decisões.

Ah sim, todos resolveram aproveitar a oportunidade pra me matar, pois quando disse que o tempo parou não foi literalmente. Mas não sou suicida à esse ponto – nem tão simples assim, repito - pois sabia que todos usavam armaduras metálicas e uma força magnética podia segurá-los por um tempo. Eles não eram importantes agora. Ele era. E continuava lá, parado olhando com seu olhar neutro.

Um milésimo de segundo antes de eu começar a andar em sua direção ele começou a andar na minha, e isso fez meu coração parar por alguns segundos. A força de vontade dele era maior que a força de qualquer campo magnético que eu pudesse usar.

A sincronia de nossas almas era maior que a de todo aquele time que não conseguia se mover no momento.

Parou à alguns metros de mim.

- Você é o líder, certo? – Perguntei.
- É assim que eles me chamam – Respondeu, ainda apático.
- Eu sinto algo dentro de você... O que é isso?
- Eu não mereço ser o líder deles – Disse e olhou para trás, e pude ver o olhar de surpreso de todos eles quando ouviram isso de seu líder – Não os conheço à muito tempo, e todos sabem que eu somente faço as coisas por mim mesmo. Eu não sinto nada mais. Não tenho sentimentos, e sou incapaz de sentir intensamente alegria ou dor. Amor ou ódio.
- Então o que faz aqui?
- O mesmo que você. Estou em busca de algo... E quero provar algo para mim mesmo – Disse e olhou para o seu lenço vermelho amarrado ao seu braço.

E o tempo parou denovo. E eu, congelei junto dessa vez.

Quando ele olhou para aquele lenço algo transbordou de dentro de seu corpo. Não era um sentimento compreensível ou classificável. Era algo sem nome que fazia tudo ao seu redor tremer. Era uma força sem leis, sem lado, sem rédeas. Algo puro e selvagem ao mesmo tempo e com mesma proporção.

- Eu – Disse em voz baixa e depois levantou os olhos, pela primeira vez com uma expressão séria – Vou defendê-los até o fim. Mesmo sabendo de tudo que fui e que sou, me tornaram seu líder e estão do meu lado nessa luta. Eles acreditam em mim, mesmo que eu não.

Essas palavras fizeram todo o medo dos guerreiros dissipar e os deu forças para vencer o campo magnético que estava os prendendo. Seu líder convenceu à todos – inclusive à mim e à si mesmo – que agora sabia porque estava ali.

- Lou! – Disseram todos, um à um, para o guerreiro do lenço vermelho, armadura brilhante e longos cabelos pretos, transbortando como uma cachoeira de seu helmo.

Lou. Deveria ser seu nome.

Todos estavam prontos para lutar, graças ao seu líder. E eu também, pois sabia qual era o motivo de minha existência ali. A minha força nunca fez sentido sozinha, por isso eu estava perdido e certamente seria derrotado com o tempo. Agora, ao menos certamente a minha força dá sentido à força irmã ali do outro lado do campo.

A batalha deixou de ter o contexto de antes. Não é simplesmente uma luta do bem contra o mal. Do dia contra a noite. Da Lua contra o Sol. É uma luta entre forças que se completam mas que no fim são iguais.

Se alguém perguntasse à cada um de nós agora, em ambos os lados, se estávamos prontos para morrer lutando e sem arrependimentos, a resposta seria a mesma.

- Sim.

A diferença é que todos nós sabíamos agora o porquê.

Que a batalha continue. Uma luta leal, justa e definitiva.

E dessa vez, até o fim.

Yu - "O Propósito"

sexta-feira, 7 de maio de 2010
Corria entre corpos de pessoas e de monstros domesticados para proteção, temendo o que estaria à frente. Era como uma trilha de migalhas de pão me levando ao encontro de mim mesmo. E de certo ponto de vista, era verdade.

Cheguei à uma das vielas principais da grande cidade, e ao longe pude vê-la, apontando sua espada de lâmina escura na direção do olhar de um homem cheio de jóias que, mesmo à distância, pude ver seu olhar de conformismo com o inevitável, sem ter para onde ir. Nessa distância, a única coisa que eu poderia fazer era lançar meu "bumerangue" - como chamava minha lâmina voadora - afiado em sua direção, com a certeza - e admito, a esperança - de não machucar nenhum dos dois. Isso era irônico, pois essa técnica de lançamento tínhamos aprendido juntos na nossa adolescência, quando vivemos um tempo com o povo da floresta.

Peguei o bumerangue afiado nas costas e o lancei com precisão com a minha mão direita, como nosso mestre da floresta havia nos ensinado.

Pude ver a surpresa de ambos quando as lâminas das duas armas de naturezas diferentes se degladiaram, tendo vencido pela vantagem da surpresa a voadora, lançando a escura para longe. O choque havia sido tão grande que o bumerangue perdeu seu rumo na volta, cravando em uma parede, no meio caminho entre ela e eu.

Ela não olhou para mim, nem para o senhor cheio de jóias e nem para sua espada longe do seu alcance. Ao invés disso, olhou um tempo para os céus, buscando pela lua crescente em meio às nuvens. Ela sabia que era eu, e nem precisava olhar para sua esquerda para confirmar. Hesitou em olhar pois sabia que eu era a única coisa que não queria encontrar. Porque somente eu poderia pará-la.

- Você disse que bumerangues eram inúteis - Falei, ironizando um comentário de quase uma década atrás.
- E são mesmo - Disse, ainda sem olhar para mim.

O covarde senhor cheio de jóias aproveitou a oportunidade e correu para longe. Nisso, eu já estava na metade do caminho e peguei a lâmina cravada na parede, guardando com cuidado no suporte nas minhas costas.

- Você diz isso porque não sabe jogar direito. Nunca se sabe quando eles vêem a ser úteis.

Nisso, ela desistiu de dar atenção à lua e finalmente olhou para mim.

- O que você está fazendo aqui? - Disse, me olhando agora fixamente, sendo direta como sempre foi.
- Vim buscar minha irmã - Respondi, e a vi ficar de boca aberta por um tempo. Quando a fechou, olhou para o chão e não disse nada - Eles não são seus inimigos - Falei, e a vi levantar os olhos se enchendo de raiva.
- Sim, eles são. Gente como eles apodrecem o mundo, jogando moedas na cara de quem vêem na frente - Disse Yu.
- Você sabe que há coisas no mundo que não podemos mudar agindo dessa forma. Apontar sua espada cheia de sangue na direção deles não vai mudar nada, só vai criar outra ferida no mundo - Falei.
- Você não sabe de nada - Disse Yu, e senti que estava conseguindo chegar na minha irmã, lá no fundo dessa pessoa agora na minha frente, presa em uma jaula.
- Olhe ali - Disse, e apontei na direção que o homem havia corrido minutos atrás.

Ao invés de chamar por ajuda - embora fosse potencialmente inútil em se tratando de Yu - ou se esconder em algum lugar, estava ajoelhado no chão, aos prantos e sem forças. Havia um garotinho agachado ao seu lado o abraçando. O menino então se levantou e ficou parado, em frente ao homem e olhando para Yu, com um olhar frio e determinado. Um muro gigantesco entre Yu e o senhor.

- Não machuque o meu papai! Por favor, vá embora! - Gritou o garotinho, e mesmo com seu olhar sério, pude ver suas mãos tremendo.

Yu estava congelada, e eu sabia exatamente o porquê. Isso foi como uma chave destrancando a jaula onde minha irmã estava presa, pois havia a lembrado de onde tudo começou.

- Não importa suas intenções, Yu - Disse, me aproximando - Aos olhos da inocência de uma criança, você é alguém mal querendo machucar seu papai, alguém que ela ama, não importando quem ele seja.
- Se eu o tivesse matado...
- Sim, você a tiraria aquilo que ele mais ama. Você seria igual à tudo aquilo que você mais odeia, que arrancou sua inocência um dia.

Seus punhos estavam cerrados, mas então ela os soltou e tirou os olhos do garoto. Olhou então para mim, e quem olhava agora era a minha irmã, não aquela coisa sanguinária que esteve ali minutos atrás.

- Por que isso dói tanto? - Disse, olhando para mim, mas evitando meus olhos.
- Esse vazio de não ter mais um propósito? Sim, isso dói, mas porque pra abraçá-lo você teve que abandonar quem você é.
- Todos esses anos... eu fugi de você... por que ainda quis vir atrás de mim? - Disse.
- Por que você é a minha irmãzinha, oras. Eu nunca vou desistir de você - Falei e sorri - Lembra daquela conversa que tivemos naquela caverna, quando sentamos no chão e começamos a conversar, ignorando os monstros feios e barulhentos que estavam perto? Lembra o que prometemos?
- Nunca... desistir um do outro... e não deixar que nada mude quem somos entre nós - Disse e olhou para o lado sentindo vergonha - Eu quebrei essa promessa, não foi?
- Não, senão já teria pegado sua espada ali atrás e teria me matado.

Yu olhou para a espada negra como se fosse algo estranho e repugnante e nunca a tivesse tocado. Depois olhou para suas mãos, que estavam manchadas de sangue.

- Te usaram, Yu. Usaram a sua raiva, colocando na sua frente quem queriam ver mortos.
- Como?! - Disse e olhou rapidamente pra mim, com espanto.
- Descobri em um Pub meses atrás, quando te procurava. Existe um grupo por aí, com gente por todo o canto, que aproveitou a sua raiva e conseguiram te usar de alguma forma. Esse mercante aí era um alvo deles.

Os punhos de Yu cerraram novamente, e ela começou a suar, explodindo de raiva.

- Yu - Falei e a vi sair do seu transe e olhar pra mim denovo.

Ao invés de falar, decidimos conversar com um simples olhar por um momento. Dei um sorriso - sádico, admito - e ela respondeu com outro.

- Vamos atrás deles? - Disse Yu, mantendo o sorriso sádico que eu tanto sentia falta.
- Claro - Falei - Esses não devem ter família mesmo.

Ambos rimos e ela veio até mim e me abraçou, algo que não acontecia à anos. Me recordei do universo de emoções simultâneas que ela era, pois o meu ombro era o único lugar no mundo em que ela sentia segurança para chorar.

Seguimos em direção aos portões da cidade, e Yu seguia segurando no meu braço com os olhos fechados, pois não queria ver o que tinha feito e deixado para trás. Tudo o que ela foi nesse tempo em que esteve "fora" ficou ali, junto àquela espada negra e os corpos que tiveram a infelicidade de ficar no seu caminho. E que pedimos perdão aos deuses por tudo isso.

Passamos dos portões e ela finalmente abriu os olhos, vendo a imensidão de colinas em frente e o céu estrelado nos cobrindo. Era um novo começo.

- Por que você não desistiu de mim? - Disse Yu, antes de começarmos a caminhar e iniciar um novo capítulo.
- Simples. Você me dá um propósito.

Yu - "Crianças"

segunda-feira, 15 de março de 2010
Chegamos de madrugada no reino de Talluh, e a primeira coisa que pensamos em fazer foi passar pelo Pub da cidade. Todavia, nossos motivos por lá não eram beber as especialidades da região e sim responder a um chamado do Rei, provavelmente interessado no que podíamos fazer na véspera do que todos chamavam de "A grande guerra".

- Não devíamos estar aqui - Disse.
- Isso não vai nos impedir de ver o Rei amanhã... relaxa - Respondeu Yu.

Entramos no bar e nos deparamos com todo o tipo de gente. É o tipo de lugar que qualquer um é aceito desde que não faça besteira, então estávamos em casa. Bebemos e conversamos sobre a viagem e nossas outras aventuras passadas.

Depois de uma hora ou duas, estávamos para sair, quando ouvimos alguns guardas reais bebendo e conversando.

- ... Ele tem causado medo e pânico nas pessoas - Disse um dos guardas.
- Já não basta a guerra estar se aproximando e ainda temos que nos preocupar com isso... Se continuar assim e não fizermos nada, seremos banidos da guarda real - Falou o outro guarda, preocupado.
- Já são trinta mortes... Trinta!

Yu se levantou para sair e a parei, segurando-a pelo braço.

- Não devíamos nos preocupar com isso? - Falei, apontando com a cabeça para os guardas.
- Não é da nossa conta, vamos. - Disse, sem um pingo de preocupação.

Fui a seguindo e pensando na boa noite de sono que seguiria.

- Sim, todas crianças - Disse o outro guarda.

Nessa hora Yu parou, e confesso que tomei cuidado com o que falaria para ela. Por isso, não falei nada.

- É... dizem que ele se esconde na floresta de Lunna... Mas lá é território dos Elven, então não podemos fazer nada. - Complementou o outro guarda.

Ja tinha ouvido falar nessa floresta. É um lugar exótico e cheio de lendas, mas não sou do tipo que acredita nelas. Provavelmente são boatos para afastar as pessoas de um lugar estrangeiro e perigoso.

Yu se virou e olhou pra mim.

- Mudei de idéia - Disse.
- Isso não é da nossa conta - Respondi, com um tom de sarcasmo que me arrependi depois, porque lembrei o motivo de crianças mexerem com ela.

Seus olhos se encheram de raiva, tanto que pensei que me atacaria ali mesmo. Mas fechou os olhos e se acalmou. Deve ter se lembrado que eu não tenho consciência e não tenho culpa disso.

- Agora é da nossa conta - Disse Yu, agora mais calma.
- Isso sim vai nos atrasar de ver o Rei - Falei.
- O Rei que espere, isso é mais importante.

Comecei a pensar na noite de sono que agora não teria.

Iosef - "Espada e Escudo"

domingo, 7 de março de 2010
1... 2... 3... 4... 5... 6... 7... 8... 9... 10... 11...

- Acorde.

12 badaladas.

Abri os olhos e estava envolto por escuridão, árvores e sons de criaturas noturnas. Não reconhecia esse lugar, embora o achasse familiar. Estava completamente desarmado, somente vestindo uma armadura antiga... A primeira que tive, logo quando comecei a minha vida adulta e criei um nome e uma fama às custas da realeza.

Havia algo de errado, pois eu não via essas vestimentas à 20 anos. - Elas foram completamente destruídas - Lembrei. Senti algo na minha mão. Estava segurando algo. Olhei e me deparei com um broche. Um broche que conhecia muito bem.

- Ilana!! - Gritei.

Comecei a correr, enquanto meu coração batia cada vez mais rápido e eu ouvia os sons das criaturas das sombras vindo em meu encontro. Tudo o que conseguia pensar era em Ilana, minha esposa. Ela me trouxe tudo de bom que conheci na vida... havia me transformado. Agora estava esperando um bebê, que viria ao mundo na próximas semanas. Nosso filho. Meu legado. Meu perdão.

Segurava cada vez mais forte o broche, tentando entender tudo isso e rezando para ser um pesadelo.

- Eu tenho que acordar!

Sentia os sons das criaturas mais próximas.

- Eu tenho que sair daqui!

Pensava na minha esposa e meu filho em perigo.

- Acorda! Acorda!

Foi quando a lua saiu de seu esconderijo em meio às nuvens no céu. O seu brilho iluminou a floresta inteira. Ouvi os sons das criaturas mudando seu rumo, agora se afastando de minha direção como se estivessem fugindo, assim como eu estava me afastando delas momentos atrás. Vi as folhas das árvores começarem a emitir uma luz, como reação ao brilho do luar. A floresta inteira começou a emanar um aroma... doce.

Deixei o broche cair de minha mão, pois não conseguia mover músculo algum. Eu agora sabia onde estava. As criaturas estavam de fato fugindo de algo. Algo que pode ameaçar qualquer homem, monstro, anjo ou demônio. Deixei de pensar que preferia que isso fosse um pesadelo. Era um pesadelo.

O brilho da lua de repente sumiu, assim como as luzes e odores da floresta. Tudo começou a sumir. Senti minhas forças indo embora, como se meu corpo desaparecesse.

~

- Abra seus olhos - Disse uma voz que parecia vir de todos os lados.

Estava em um lugar onde não se via céu nem chão. Tudo à minha volta era escuridão, alternando entre tons vermelhos e azuis.

Na minha frente havia uma plataforma redonda e grande com inscrituras que alternavam entre um brilho forte e fraco. No meio dela estava Ilana, dormindo calmamente na nossa cama, exatamente como estava quando fomos dormir essa noite.

À frente da plataforma havia um altar gigante com várias formas e símbolos estranhos gravados. Havia um trono no centro, onde sentava alguém. Era eu, vestindo a armadura negra que usei no auge de minha vida nas sombras. Eu... ou "Ele"... estava usando uma máscara branca, somente deixando à mostra os longos cabelos que eu possuía.

- Seja bem vindo à minha casa, Iosef - Disse "Ele".
- Por que você se parece comigo? - Perguntei.
- Posso responder à essa pergunta outra hora? - Indagou, com um tom de sarcasmo.

Então "Ele" mostrou algo que segurava em sua mão. Era o broche de Ilana.

- Você vai... levar ela? - Perguntei, temendo a resposta.
- Claro que não. Ela não pertence à esse lugar. - Respondeu.
- Então você vai...
- Você sabe por que está aqui agora, Iosef? - Interrompeu.
- Temo que sim.
- E por que, então?
- Julgamento.

"Ele" é uma força maior e infinita. Não se define como Bem ou Mal, nem sequer tem um nome. Nem forma. Por isso fiquei confuso com sua aparência semelhante à minha. Aqueles que acreditavam nele o chamavam de "Juiz".

De repente, tudo ficou claro.

- Meu filho!!! Você quer o meu filho!!!
- Sim, Iosef.

Senti toda a raiva que aguentava sentir e fui correr em sua direção para atacá-lo, sem pensar. Ele sumiu do altar e reapareceu à minha frente, junto à um golpe com a garra negra que usava. Que eu um dia usei. Caí longe dali, me sentindo fraco mas sem dor alguma.

- Por que!?!? Por que o meu filho!? - Perguntei, enquanto tentava me levantar.

Ele então sumiu e reapareceu ao lado da cama de Ilana.

- Perdão e esquecimento são duas coisas distintas, Iosef. Você achou que perdoando o seu passado você o apagaria. As memórias de um homem podem acabar juntamente à sua vida, mas todos os seus atos e consequências ficam gravados no mundo, no tempo e na história.
- O que você vai fazer com ele?!? - Perguntei, sentindo uma imensa raiva.
- Sua alma e seu coração serão selados. Não terá espada nem escudo. Sentirá a solidão de não fazer parte do bem nem do mal. Será uma força entre os homens assim como eu sou no universo. Neutra.

Perdi qualquer força que tivesse em mim, pois meus maiores medos tinham tomado forma. Meu filho seria o marco do perdão pelo meu passado... Mas acabou por se tornar a consequência.

Em minha vida, sentimentos ruins me fizeram caminhar nas sombras e, então, sentimentos bons me transformaram. O que será uma vida sem sentimentos? Meu filho não merecia isso.

- Mas agora você pode viver com tranquilidade, Iosef. Você está livre de suas correntes.

Ouvir isso não me fez sentir nada tranquilo. Eu só sentia angústia e medo, misturados à raiva.

- Seu filho nascerá na próxima lua cheia, à meia-noite. O marco diário entre passado e futuro - Disse.

Então, "Ele" desapareceu junto ao altar e a plataforma. Tudo o que restou foi a cama de Ilana. Fiquei parado um pouco do lado dela, olhando-a dormir e pensando em nosso filho. Ele carregaria toda a minha culpa em si e nem saberia disso. Nada faz sentido.

Deitei na cama ao lado de minha esposa, abraçando-a e acariciando sua grande barriga onde estava nosso filho. Então vi algo diferente. Uma pequena borboleta azul se aproximou, descansando na beira da cama. Me senti mais leve e vi tudo ao meu redor tomar forma quando eu acordei. Estávamos de volta no nosso quarto. Em nossa casa.

Comecei a pensar racionalmente em tudo, agora que estava acordado. Tinha que tentar fazer alguma coisa, até a próxima lua cheia. Nem que custe o meu perdão.

Por ele. Meu filho. Meu legado.

Por Louis.

Yu - "O Mundo..."

domingo, 21 de fevereiro de 2010
Despertei do que pareceu ter sido uma vida inteira de sono. Ainda estava cansado da última noite, pois após tempos turbulentos longe dali, estávamos de volta. E como tem sido desde minhas primeiras lembranças da infância, não sonhei enquanto dormia. Ao contrário dela. Fui até o quarto onde ela havia dormido e não estava na sua cama...

O cheiro de pão fresco tomava conta da casa da Senhora Anna, que como sempre que estávamos na cidade, nos recebia em sua casa pelo tempo que precisasse. Ela é eternamente grata à nós desde anos atrás, quando conseguimos salvar seu filho, ainda criança, de um ataque de ladrões à carroagem do pai. Não conseguimos salvar o pai a tempo.

- Bom dia, Senhora Anna - Falei, ao descer as escadas e a avistar andando em direção à cozinha.
- Bom dia, querido! E por favor, me chame de Anna... assim me faz parecer velha! - Disse a senhora já com certa idade, baixa estatura, longos cabelos brancos e uma disposição que me causava certa inveja nessa preguiça matinal. Eu nunca mais consegui falar com ela sem me sentir inquieto ou olhar para o chão, desde o episódio da carroagem. De certa forma, sentia vergonha não pelo que fizemos, mas pelo que não conseguimos fazer.
- Umm.. Desculpe... Me diga, onde ela está? - Perguntei.
- Onde você acha? Levantou antes do Sol nascer no horizonte e está lá...

Saí da casa e fui subindo as escadarias do grande muro que cercava e protegia a cidade, enquanto pensava nela e nos seus motivos.

Lá estava. O Sol parecia se comunicar com ela enquanto nascia no Horizonte. Seu brilho laranja e cada vez mais intenso iluminava como uma luz divina os seus longos cabelos vermelhos e sua espada prateada na cintura, em contraste com sua pele clara como a neve nas montanhas geladas.

Usava uma armadura escura... Não tão pesada e forte como as de ferro que os guerreiros usam nas missões nem tão leve e fraca como a de um aprendiz. Ela sempre precisava se sentir protegida.

Me aproximei e lhe abracei, sem falar nada. Certos gestos dispensam palavras.

- No que está pensando, Yu? - Perguntei.
- No mundo... - Respondeu, enquanto colocava sua mão no meu braço.

Comecei a falar sobre coisas diversas, tentando a fazer sair do seu mundo interior e voltar pra o nosso. Parecia que minhas palavras ricocheteavam... Estava hipnotizada ali, e eu sabia o porquê. Ela então olhou para trás e se virou em direção à cidade...

- As coisas não deveriam estar dessa maneira... Os inocentes irão pagar pelo que não escolheram... - Disse Yu.

Não falei nada, pois não havia o que dizer. Ela então apontou em direção à fonte que ficava no meio da cidade, onde começavam as quatro grandes vielas que a dividia em quadrantes, formando um grande cruz.

Lá estava uma garota, provavelmente de 10 anos ou até menos, segurando uma espada leve mas ainda ofensiva. Ela dava golpes desengonçados no ar, mas possuia um olhar determinado. E de certa forma, frio.

Era para ela que Yu olhava.

- É assim que será o mundo daqui pra frente? - Disse Yu, sem tirar os olhos da garotinha.
- Não devemos julgá-los pelos erros da nossa geração - Repondi.
- Devemos julgá-los sim, mas pelas suas escolhas. E devemos protegê-los - Disse, enquanto segurava com mais força o cabo da sua espada na cintura.

De repente, ouvimos um barulho vindo da direção do Sol, agora com quase todo o seu brilho no céu. Viramos, para ver um cavalo se aproximando rapidamente pela estrada que terminava nos portões da cidade. Ninguém estava montado, mas trazia algo consigo. Havia algo de sinistro em volta dele.

Ficamos em silêncio, e olhamos nos olhos um do outro...

Certos gestos de fato dispensam palavras.