Yu - "Espadas"
sexta-feira, 13 de maio de 2011- Esse lugar já está me entediando – Diz Yu.
- A mim também. Mas veja bem, assim eu posso melhorar minhas habilidades com o arco e você pode melhorar a sua magia.
- Você fala isso porque não sabe usar magia. Isso cansa pra diabo.
- Somos jovens, parceira! E ainda temos poções – Respondi, referindo-me às poções que trazem de volta as forças mágicas, que são um mistério para mim.
- Mas não temos mais vinho. Não consigo tomar essas poções sem misturar, são horríveis.
- Isso um dia vai te matar – Respondo, com ar de reprovação.
Ouvimos barulhos à nossa volta e nos deparamos com os corpos apodrecidos que havíamos visto minutos atrás. Só que agora estão de pé, andando com dificuldades e sem vida, movidos por algo frio. Esperaram nós chegarmos num lugar onde eles estivessem mais numerosos para atacar.
- Que ótimo, mais zumbis. Odeio desperdiçar minha magia neles – Diz Yu.
Ela pega seu cajado nas costas e o segura com uma mão. Com a outra, estende a palma em volta da grande pedra mágica que fica na sua ponta, sem encostá-la, que vagarosamente se ilumina.
- Você tem energia suficiente? – Pergunto, ao largar nosso saco de mantimentos no chão e a pegar meu arco nas costas e logo depois uma flecha.
- Não sei, enquanto isso me cubra.
Aceno com a cabeça e olho na nossa volta. Eles se aproximam em grupos de três ou quatro, por cada uma das seis passagens que dão acesso ao nosso recinto.
Lanço a primeira flecha no zumbi que está mais perto, buscando acertar sua cabeça ou seu peito. Não tenho muita habilidade ainda com arcos mas consigo uma flechada certeira no crânio da criatura, que cai sem “vida” no chão.
- Boa! Agora acerte mais trinta dessas que eu vou dormir aqui um pouco enquanto isso – Diz Yu, sarcasticamente.
Resolvo não a responder, e sim me concentrar nos zumbis. É fato que são numerosos e que Yu talvez não tenha energia à tempo para me ajudar a acabar com eles. Eu conseguiria sem problemas matar a todos se não tivesse que protegê-la também, pois está vulnerável enquanto tenta se concentrar.
Vou lançando flecha a flecha, sempre buscando acertar a criatura mais próxima.
Vejo que duas se aproximam de nossas costas.
- Yu, abaixa! – Digo, e lanço duas flechas seguidas e certeiras nas duas cabeças.
Ela é teimosa pra dizer “obrigada”, portanto só pisca pra mim com o olho direito num sorriso maldoso.
Depois de mais algumas flechas vejo que as criaturas vão diminuindo, mas estão mais próximas. Busco flechas nas minhas costas e vejo que estão acabando. Yu vê e faz um sinal de reprovação.
- Você deveria ter ficado com aquela lança, estava ficando bom com ela. Não entendo por que você sempre troca de arma quando está começando a dominar alguma – Diz Yu.
- Gosto da ideia de dominar várias armas. Isso me dá bastante vantagem, já que não posso usar magia.
Busco mais flechas e vejo que só restam três. E há ainda uns seis zumbis.
- Lou, cuidado! Ali em cima!
Olho acima e vejo um zumbi que estava em um piso superior, que encontrou espaço num buraco para o nosso para nos surpreender. Ele salta em minha direção, não me dando tempo para buscar uma flecha. Me derruba e segura com uma mão no meu cabelo e com a outra tenta cravar suas unhas afiadas no meu pescoço. Consigo segurar o seu braço podre mas tenho dificuldades para me livrar dele.
- Chega, não tenho tempo pra isso – Diz Yu.
Ela larga seu cajado e corre em minha direção, desferindo um forte chute no pescoço do zumbi, com a sua bota pesada. A criatura cai sem vida ao chão.
- Obrigado. Achei que você tinha dormido mesmo – Digo, ao pegar na sua mão para me apoiar e levantar.
- Você que não deu conta dele – Responde Yu.
Restam seis zumbis.
- Tenho três flechas. Você dá conta daqueles três? – Pergunto.
- Dou conta dos seis, mas você ficaria bravo – Diz, ao rir maldosamente.
Ficamos de costas um ao outro, e de frente para os dois grupos de três zumbis. Busco a primeira flecha e lanço-a no peito do primeiro, que trepida e cai ao chão. Ao pegar a segunda flecha sinto Yu ir na direção do seu grupo de criaturas. Me preocupo, mas preciso confiar nela.
Lanço a segunda flecha em direção ao peito de outro zumbi, mas acabo acertando perto do ombro. Por sorte, ele acaba por cair desacordado.
Ouço atrás de mim o barulho de ossos sendo quebrados. Fico preocupado e olho para trás. Vejo Yu utilizando o crânio de um zumbi para quebrar o crânio do outro. Me tranquilizo um pouco.
Olho à frente novamente e, por fim, busco a terceira flecha e lanço-a na última criatura.
Erro, por alguns centímetros. Minha inexperiência, ironicamente, me pegou na última flecha.
Sem muita escolha, parto na direção da criatura com a intenção de utilizar o arco como uma arma de combate próximo. Ele é feito de uma madeira forte e relativamente pesada, mas não com esse propósito. Porém, tenho experiência o suficiente com lanças e bastões para saber que consigo utilizá-lo dessa forma sem quebrá-lo.
Lembrando dos golpes que utilizava com bastões há alguns anos, acerto um golpe da esquerda para a direita no rosto da criatura para desnorteá-la, e depois aproveito o formato curvado da ponta do arco para enganchar na sua perna e derrubá-lo.
Com a criatura no chão à minha mercê, utilizo a outra ponta do arco para atravessar seu crânio.
Quando pondero em pensar “acabou”, ouço um barulho atrás de mim. Consigo sentir aquele cheiro podre se aproximando rapidamente, com suas unhas à centímetros de mim buscando meu pescoço. Fui pêgo – penso – pelo zumbi no qual acertei uma flecha no ombro, e achei que tinha perecido.
Não há tempo de reagir. Só fecho os olhos.
E ouço o barulho do ar sendo rasgado e um baque logo atrás de mim. A mão do zumbi estava tão próxima que acabou deslizando no meu pescoço e descendo pelas minhas costas.
Me viro e vejo o zumbi sem vida, empalado pela mão de Yu na altura do coração. Olho-a por trás dele e sinto um frio intenso, mas passageiro. Uma sensação ruim.
Yu larga o corpo da criatura no chão.
- Obrigado Yu, você me salvou – Agradeço.
- Não me agradeça, só tome mais cuidado Lou... – Responde, e fica observando sua mão suja por um tempo, com certa confusão.
- Você é muito forte e rápida, parceira. Já lhe disse que deveria usar espadas.
Yu olha para o lado com uma feição de desprezo e raiva. Vai em direção ao seu cajado que havia largado ao chão. Pega-o, e fica por um tempo de costas para mim.
- Eu odeio espadas. Nunca colocarei a mão em uma.
Yu - "Inocência"
domingo, 10 de abril de 2011- É aqui então... – Diz Yu, olhando a fileira de árvores que dá início à floresta densa.
- Ele disse que sim. Só não sei se deveríamos confiar nele – Digo, me referindo ao Sem Nome.
- É o melhor que temos. E algo me diz que ele não mentiu.
- Yu, ele quase nos matou – Digo e olho em sua perna machucada, depois em meu braço enfaixado com um pano vermelho. – Ainda não entendi nem porque ele nos ajudou depois de tudo.
- Não importa. Não agora – Diz minha parceira.
Me dou conta que minha falta de sentimentos mais uma vez me impediu de reparar nos dela e no que significava estarmos ali.
- Certo, vamos – Digo e pego na sua mão. Ela segura forte na minha e sorri gentilmente.
Andamos por mais de um dia floresta adentro. Estranhamente, encontramos poucos perigos. No fim, só algumas criaturas com fome.
- Isso está estranho – Diz Yu.
- Sim. Achei que seria mais perigoso. Pelo menos temos mais liberdade para procurá-lo.
Seguimos adiante e paramos. Senti uma presença estranha por perto e fiz um sinal para Yu parar de andar. Nos olhamos e prestamos atenção no silêncio total do ambiente. De repente, pudemos ouvir um extenso assovio que soava e ecoava na floresta como o belo canto de um pássaro.
- Tem um Elven por perto – Digo e Yu balança a cabeça positivamente.
Anos atrás vivemos por um tempo com uma tribo de Elven, em outro lugar. Esse assovio é o sinal que usam para chamar ou procurar uns aos outros à grandes distâncias.
- Vamos procurar ele – Diz Yu e não entendo -. Algo me diz que deveríamos e que ele não está querendo nos fazer mal – Explica antes de eu falar algo.
Confio nos seus instintos e a sigo. À frente ouvimos novamente o assovio, e nos guiamos pela sua direção. Continuamos andando e o assovio soa mais próximo, até que cessa repentinamente ao ouvir o barulho que fizemos pisando nas folhas que cobrem o chão.
- Quem está aí? – Diz uma voz bonita e calma, mesmo ao falar alto, do Elven que esperávamos encontrar.
Prosseguimos com calma para ele não achar que somos uma ameaça e o encontramos. Ele é alto, com pele clara nos tons da floresta e tem cabelos claros e orelhas com as pontas maiores do que a dos homens, como todos da sua raça. Segura um bonito arco e flechas de pontas afiadas como uma lança, feito das árvores de maior qualidade da floresta, que homens sequer podem encostar.
- Olá – Digo com as duas palmas das mãos levantadas. Yu segue do meu lado sem segurar no cabo de sua espada, sinalizando que não quer lutar.
O Elven olha bem para nós dois e guarda o arco em suas costas.
- Quem são vocês? – Diz.
- Estamos procurando um assassino de crianças que se esconde em Lunna – Yu diz, sendo direta como sempre é.
O Elven se surpreende e fica de boca aberta olhando para nós. Em seguida olha para o chão por um tempo.
- Eu também estou – Diz e nos surpreende: – Ele sequestrou a minha filha.
- Como?? – Diz Yu exaltada.
- Ele conseguiu entrar no nosso vilarejo durante a noite e levou a minha filha – Diz e levanta a cabeça, olhando por entre os feixes de luz que rasgam por entre as folhas das árvores.
- E como ele conseguiu fazer isso? – Indago – Vocês conseguem perceber uma ameaça na floresta de longe.
- Não sabemos ainda como.
- E o resto da tribo? – Pergunta Yu.
- Se recusaram a me ajudar – Diz e nos surpreende novamente. – Como ninguém viu, todos a consideram somente desaparecida. Como esse monstro tem causado muitos problemas no seu reino dos homens, o povo da floresta não quer interferir.
Yu se exalta.
- Tolos! Como podem virar as costas à sua raça??
O Elven desvia o olhar.
- Tudo pelo bem do povo da floresta – Digo e o Elven olha para mim e balança a cabeça positivamente.
- O máximo que fizeram por mim foi me deixar ir atrás de minha filha por minha conta – Diz o Elven.
Ficamos por um tempo em silêncio.
- Como é o seu nome? – Pergunto.
- Nahky... – Responde o Elven.
- Eu me chamo Louis e ela é a Yu... Bem, Nahky, o que acha de o procurarmos juntos?
Nahky nos olha e o vejo ponderar suas lições que aprendeu sobre não confiar nos homens.
- Obrigado – Diz, ao se dar conta que lições mais recentes o fizeram ponderar sobre a confiança em sua própria raça.
Seguimos, em busca do monstro.
Andamos por mais um dia e meio na imensidão da floresta, quase todo o tempo em completo silêncio. Yu e eu somos acostumados a muitas vezes andar por muito tempo sem dizer nada. O silêncio que criamos muitas vezes é confortante, e não agressivo; O conforto que sentimos na presença um do outro é algo inexplicável.
Nahky é um Elven diferente de outros que já vimos. Em tão pouco tempo nos sentimos seguros na presença dele, tanto que o confiamos a vigília por um tempo na última noite enquanto dormíamos, pois estávamos esgotados do nosso último combate e a sua raça pode ficar dias sem dormir.
- Vocês conhecem alguns segredos da floresta – Diz Nahky, quebrando o silêncio.
- Sim, vivemos por um tempo com uma outra tribo Elven – Respondo.
- Qual tribo?
- Os Lann.
O nosso companheiro Elven fica surpreso.
- Curioso o fato de os terem recebido bem entre eles – Diz o Elven.
- Não foi exatamente assim... – Interrompe Yu.
Nahky se prepara para dizer algo e subitamente pára. Ele sente algo. Eu também sinto. Yu, por sua vez, nos olha com certa confusão. Nahky, rapidamente e sem dizer nada, parte em direção à fonte do pressentimento, e o seguimos confiando nos seus instintos.
Chegamos em uma pequena clareira, um lugar mais aberto e com menos árvores.
À frente vejo uma criança Elven jogada ao chão.
Na sua frente, de costas para nós, uma criatura levantada diante sua vítima à mercê. Se parece com um urso, pelo tamanho e pela pelagem do seu corpo.
Yu, ao ver aquela imagem, fica estática como à muito - muito - tempo eu não via.
Nahky corre e salta com precisão em direção à um galho de uma árvore. Com uma coordenação impressionante, se impulsiona no galho e pega seu arco e uma flecha em suas costas, à tempo exato de encontrar o momento em que seu corpo paira inerte no ar com o ângulo perfeito para poder lançar com precisão uma flecha na criatura.
A criatura percebe o ataque e salta para trás, sem conseguir evitar que a flecha raspasse no seu rosto.
Estranhamos a maneira com que a criatura saltou, se jogando de costas e impulsionando outro salto com seus braços de forma a cair perfeitamente de pé. Sua agilidade certamente não era a de um urso.
Nahky chega ao chão e corre em direção à criança.
- Nadja! – Diz e checa se sua filha ainda vive.
- Nahppa... – Diz a criança fraca e machucada, mas viva.
Finalmente conseguimos ver o que era de fato o monstro.
Era um homem.
Um homem selvagem que vestia a pele de um urso tal como um manto, cobrindo a parte de trás do seu corpo e a parte de cima da cabeça com a pele da cabeça do animal.
- Enfim um Nnah que se importa com o seu próximo – Diz a o homem selvagem, e eu vou em direção à Nahky e sua filha.
O Elven olha com uma raiva não convencional à sua raça e lança outra flecha na criatura. Ela desvia e logo que olha à frente novamente vê o Elven desferindo um golpe utilizando a lâmina afiada do seu arco como uma lança. A criatura recua sem ter se afetado pelo golpe e se afasta evitando os golpes que sequem sem parar em meio à selvageria do Elven. Nahky enfim acerta-o impulsionado um golpe certeiro de baixo pra cima no seu peito, jogando-o para trás tal qual foi quando levou a primeira flecha.
Nahky percebe que a criatura vai cair no chão e salta em sua direção, com a intenção de utilizar a lâmina do seu arco para empalar o monstro mortalmente. A criatura surpreende-nos e consegue pegar impulso e equilíbrio com suas pernas ao chão, e mergulha para cima com um golpe com suas duas garras afiadas no peito do Elven, pêgo desprevenido e lançado bruscamente em direção à uma árvore. Esse ataque é único, pois consigo sentir a energia que ele usou para tal.
Olho para Yu para pedir ajuda e vejo que ela continua estática. Pego Nadja nos braços e vou na direção de Nahky para checar o seu estado. Não estava muito bem, o ferimento que preenche todo o seu peito é feio, mas não mortal.
Deixo os dois no chão e coloco minha garra negra, pronto para enfrentar sozinho o monstro, ainda com meu braço machucado pela luta anterior.
- Lou, espere. – Diz Yu.
Ela saiu do transe e vem na nossa direção.
- Proteja Nahky e Nadja, deixe-me enfrentá-lo – Diz e eu a olho pronto para discutir – Por favor, Lou – Suplica Yu.
Pondero e acabo aceitando a situação, sem muita escolha. Pego Nadja nos meus braços levo-a até uma árvore próxima para encostá-la; e volto e trago Nahky com certa dificuldade pelo meu braço machucado e os reúno, afastados de Yu e o monstro.
Yu olha fixamente para a criatura.
- Por que? Por que as crianças? – Pergunta.
O homem selvagem gargalha.
- Esse mundo é podre mulher Ha-ha-ha... Estou fazendo um favor à elas. Estou preservando sua inocência antes que elas sejam corrompidas pelo mundo.
- Você não tem o direito de fazer isso – Responde.
- E que direito os homens têm de criar sua prole para a guerra? E por vezes, em nome de guerras aos deuses – Diz o monstro, e Yu dessa vez não responde.
- E os Elven, o que eles têm a ver com isso? – Digo, interrompendo-o.
- Os Elven são tão podres quanto os homens. Viram as costas para sua própria raça, por medo de sair da sua floresta feliz e se envolver com os homens e o resto do mundo. Peguei essa criança só para ver o que eles fariam. Não me surpreendi, o resto dos Nnah fizeram nada.
- Chega – Diz Yu.
Ela pega sua espada prateada na sua cintura. Os feixes de luz que transpassam as árvores rebatem nas escrituras gravadas na lâmina.
- A inocência das crianças – Prossegue – São a única chance que temos de salvar nosso mundo. Não importa qual a raça; Ao arrancar a vida de uma criança, você destrói tudo o que ela poderia ser; Um herói ou um vilão; Um homem ou um monstro. Destrói todos os seus sonhos, e tudo que ela poderia fazer pelo mundo.
O homem selvagem vestindo pelo de urso não responde.
- Você vai morrer agora - Yu diz suas últimas palavras ali.
Ela corre segurando com as duas mãos a sua espada; O monstro não recua, e sim vem em sua direção, e salta com suas garras prontas para atacá-la. Yu vira a lâmina em sua direção e usa uma técnica antiga para emitir um brilho intenso para desorientar a criatura, que se perde no seu salto e acaba encontrando um golpe certeiro no seu peito, de baixo para cima, no mesmo lugar onde Nahky havia o atacado. Ela não diz nada, mas eu sei que esse golpe foi por ele.
A criatura cai ao chão e emite um grito alto e doloroso.
Yu olha-o de forma apática, e caminha em sua direção para dar um fim em sua vida. Inesperadamente, a criatura agilmente salta do chão em sua direção, utilizando um golpe com sua garra.
Yu salta para trás, mas não consegue evitar que sua perna já machucada seja atingida. Ela cai ao chão segurando o ferimento aberto em sua perna.
Não grita nem chora. Nunca o fez.
- Yu! – Grito e me preparo para ir ajudá-la.
- Não! – Diz Yu, me olhando com uma expressão de raiva.
Volto o olhar à criatura e a vejo ficar de pé com dificuldades, pois o seu ferimento foi quase mortal.
- Você é forte, mulher. E já que gosta tanto dessas crianças, vai se juntar à elas agora – Diz o monstro.
Ele se agacha, e põe suas duas garras ao chão. Consigo sentir a energia ali, tal qual foi quando atacou Nahky.
Yu se levanta com dificuldades também, pelo ferimento da sua perna. Levanta a sua espada e passa a mão nas escrituras de sua lâmina prateada, sussurrando palavras de uma língua ancestral.
O monstro salta com uma velocidade tão grande que podemos ouvir o som do vento sendo rasgado. Yu segura a espada, e salta também em sua direção impulsionada somente por uma perna.
Sua espada emite um brilho tão intenso que cega à todos nós.
Só ouço Yu gritar.
E o som magistral de um trovão que ecoa em toda a floresta.
Demoro algum tempo para recobrar meus sentidos, e minha visão ainda está embaçada. Só ouço o barulho de algo sendo cortado. Me levanto e enquanto minha visão volta ao normal vejo Yu arremessando pedaços do monstro e os decepando com golpes de espada.
Deixo Nahky e Nadja, desacordados, e vou na direção de Yu.
Depois de mais três golpes, ela cessa.
Chego ao seu lado, olho à frente e me deparo com o monstro despedaçado ao redor. Yu se rende à dor na sua perna e desaba ajoelhada ao chão... Me agacho do seu lado para segurá-la e pela primeira vez em todos esses anos, a vejo chorar. Ela se abraça em mim e apóia sua cabeça em meu ombro, soluçando em meio às lágrimas.
Olho à frente novamente os pedaços do monstro.
Nem preciso contá-los.
Sei que são trinta.
O Sem Nome - "Quem sou eu?"
segunda-feira, 25 de outubro de 2010Já perdi a noção de quanto tempo eu estou andando, mas minhas pernas aparentemente têm certeza absoluta. Certamente já faz algum tempo desde que comecei a perambular, e sinceramente os motivos que deram início à isso hoje não fazem mais sentido. Eu não sou mais aquela pessoa.
Então, a pergunta é: “Quem sou eu?”.
Ninguém.
Esse é o segredo da minha sobrevivência, seja lá quais julgamentos isso me traz. Eu não tenho um nome. Constrastando isso, eu mudo a minha aparência ao avesso quando tenho vontade. Não diria que sou um camaleão que se camufla pra sobreviver. Considero a mim mesmo um erro que teve sua hora para ser corrigido, mas que esse tempo de ser eliminado já passou. Aqueles que gostam de blasfêmia me consideram um agente do caos ou um mercenário sujo – sendo que considero o último um ultraje, pois trabalho pra ninguém.
Caos. Essa é uma palavra confortável de se ouvir, embora algo dentro de mim não deixe que isso se contextualize por completo, pois traz a sensação de fazer parte de algo, mesmo que o próprio Caos. Eu não tenho regras, posso ser qualquer pessoa, desde que a situação me demonstre curiosidade, interesse ou uma agitação interna.
Não ando buscando um sentido. Não há sentido; portanto não há busca. Talvez eu só goste de andar e queira deixar cicatrizes pelo caminho
~
- O que é isso? – Penso comigo mesmo.
Estou sentado em uma pedra à alguns metros da estrada, na frente de uma fogueira recém acesa, contemplando o silêncio. Silêncio esse que foi quebrado por uma agitação que fez meu coração ficar inerte e me deixou com os pés formigando por alguns segundos.
- O que é isso? – Penso novamente. Nunca senti algo parecido em toda a minha vida.
Algo grande está vindo. Consigo sentir uma única força, que tem algo certamente bizarro em si. É como se tivesse duas faces, que conseguem coexistir em harmonia no mesmo lugar. Isso certamente é bizarro. Não estou entendendo coisa alguma. Consigo sentir, ler e interpretar essas forças poderosas e invisíveis que existem no mundo, mas isso que sinto agora é novo e único. Preciso ver com meus próprios olhos.
Levanto, pego as minhas coisas, coloco as duas baínhas das espadas nas costas e começo a andar na direção da força, curioso com o que deve ser. Já vi essas forças se manifestarem em criaturas poderosas ou elementos da natureza. E às vezes pessoas, embora seja mais raro e sempre algo instável.
Paro de andar. A força me sentiu. Por experiência sei que não adianta tentar ficar oculto, somente posso esperar. Uma vez que essas forças me sentem é praticamente impossível perder o rastro. Bom, eu não tenho interesse em fugir mesmo, só perco o fator surpresa.
Ouço barulhos pela grama alta atrás de um pequeno morro. Então a presença some e eu fico preocupado.
- Quem é você? – Diz uma voz feminina e forte atrás de mim.
Olho pra trás e perco o ar. E pela primeira vez desde que eu comecei a andar, fiquei assustado e surpreso com o que vi. Uma mulher e um homem, que conseguiram me enganar à pouco.
A mulher é uma ruiva, com pele clara como a neve e olhos acinzentados, sérios e profundos. Veste uma armadura escura mas forte e tem uma bonita espada prateada na cintura.
O homem tem pele clara – mas não tanto quanto a ruiva -, cabelos longos e negros e olhos verdes, determinados mas longínquos. Veste uma armadura leve e azulada, tem uma arma estranha nas costas e está colocando uma garra escura na mão esquerda.
Porém, o que me assustou não foram os dois. E sim a coisa bizarra que flutuava acima deles. É algo que se assemelharia com um anjo, mas com uma asa branca e angelical e a outra negra e demoníaca. Tem longos cabelos castanhos claros meio laranjados, olhos foscos e um corpo cheio de cicatrizes. Não tem boca ou orelhas. Certamente não se parece nem um pouco com os anjos das histórias para crianças.
O que esses três – ou talvez seja melhor esses dois – fazem aqui? São experientes, pelo jeito que me sentiram e me surpreenderam pelas costas. Sinto uma afinidade muito grande entre eles. Talvez um casal. Ou irmãos.
Algo estranho é que agem como se não soubessem da presença do “anjo” ali. Será que não sabem? Bom, no fim isso não faz diferença, já que essas forças vivem em um plano diferente do nosso – só sua energia transpassa para esse mundo. O que esse anjo faz com eles? Eu nunca havia visto com tamanha clareza de detalhes uma força dessas no nosso mundo. Ele deve ser realmente fenomenal para conseguir transpassar para cá com tanta intensidade – ou talvez o seu mundo seja tamanho entediante.
Os dois parceiros olham um para o outro por alguns segundos, depois olham para mim novamente.
- Eu perguntei quem é você – Repetiu a ruiva.
- Deixe esse homem estranho, Yu. Temos mais o que fazer do que perder tempo aqui – Diz o homem.
- Não. Ei, o que você sabe sobre a floresta de Lunna e as mortes de crianças?
Ótimo.
- Sei o suficiente – Respondo.
- Então diga – Reiterou a mulher, Yu.
- Não.
A mulher segura com força o cabo da espada, e me preparo para um ataque, e então larga depois que o homem segurou no seu braço. Os dois se olharam por um tempo novamente.
- Vamos, Lou. Ele não sabe nada.
A mulher se virou a começou a andar, e o homem fica um tempo me olhando, até que se vira para ir atrás dela.
Corro e salto na frente deles.
- Não, vocês não vão.
Os dois se surpreendem. Yu pega a sua espada prateada e Lou prepara sua garra e segura a arma estranha com a mão direita nas costas. O anjo estica as suas duas asas distintas e segura nos ombros dos dois por alguns segundos. Posso ver a energia pura fluindo e coexistindo.
Eles são únicos e eu preciso testá-los.
Pego as duas espadas curvadas nas costas e vou na direção dos dois – ou três.
Louis - "Preto e Branco"
domingo, 8 de agosto de 2010A união de fato traz a força.
Mas e força de vontade solitária da vingança?
Eu já estive do lado oposto dessa linha imaginária que separa o preto do branco. Na realidade, eu não considero esses lados tão opostos assim. Somos iguais que pensam diferente no final das contas.
Olhando pelo meu lado é uma batalha desleal. Sim, eu sou um monstro capaz de destruir todos eles. Por acaso, esse é o motivo de todos estarem aqui. Mas estou sozinho. O fato é: Não é o bem que sempre vence o mal, mas sim que os maus naturalmente são solitários e acabam derrotados pela força coletiva do bem. Um salve às histórias infantis para dormir.
Dois deles correram em direções opostas tentando me confundir. Ver essa sincronia dos movimentos deles faz meu coração bater mais rápido, e não é de medo. É de emoção. Emoção de ver um monstro na minha frente de igual poder ao monstro que vejo no espelho ou no reflexo de um lago.
Mas eu não sou tão simples assim.
Levantei meus braços e surgiram do chão chamas como se fossem tentáculos de um monstro dos mares, o pesadelo de qualquer marinheiro. Um dos guerreiros apressados sucumbiu à um golpe de fogo violento, e o outro venceu pela agilidade. Mas ficou congelado olhando para mim como se eu fosse o próprio Diabo evocando as chamas do inferno e os atacando com o meu tridente.
Será que ele estava tão errado assim? Não o culpo, pois essa imagem resolveu viver na minha mente à muito tempo.
- Você vai morrer, seu desgraçado! – Disse o guerreiro de capa cinza. Admito que isso me afeta e dói mais do que quaisquer golpes de espadas, lanças, machados ou rajadas de flechas. Estou conformado com o caminho que decidi seguir, mas será o bastante? Um motivo e uma razão são coisas distintas.
O fato é que até agora eu estou somente me defendendo, repelindo todos eles. Admito que não queria ter matado o primeiro guerreiro apressado, mas a força mística que eu evoco em batalha não é controlável tanto quanto eu gostaria.
Então o tempo resolveu parar.
Existia um guerreiro entre eles que era diferente do resto. Quando todos estavam abalados e com olhares cheios de sentimentos diferentes, ele continuava apático. Enxerguei nele algo familiar. Via à mim lá na frente, vestindo uma armadura brilhante e com um lenço vermelho amarrado ao braço direito.
Então eu parei. Sim, eu parei. Quando eu abaixei meus braços, as criaturas feitas de sombra que estavam distraindo os guerreiros sumiram. A barreira de gelo que ergui pra me proteger começou a rachar.
Tudo isso porque eu custei a lembrar o porquê estou aqui. Custei a lembrar dos motivos pelos quais eu resolvi acabar com tudo. Quando olhei pra ele, me perguntei porque mesmo alguém como eu podia estar lá do outro lado sem ter sucumbido. Ele não estava lutando pela coletividade e pelos gritos de guerra de um time. Ele estava lá por si mesmo e suas decisões.
Ah sim, todos resolveram aproveitar a oportunidade pra me matar, pois quando disse que o tempo parou não foi literalmente. Mas não sou suicida à esse ponto – nem tão simples assim, repito - pois sabia que todos usavam armaduras metálicas e uma força magnética podia segurá-los por um tempo. Eles não eram importantes agora. Ele era. E continuava lá, parado olhando com seu olhar neutro.
Um milésimo de segundo antes de eu começar a andar em sua direção ele começou a andar na minha, e isso fez meu coração parar por alguns segundos. A força de vontade dele era maior que a força de qualquer campo magnético que eu pudesse usar.
A sincronia de nossas almas era maior que a de todo aquele time que não conseguia se mover no momento.
Parou à alguns metros de mim.
- Você é o líder, certo? – Perguntei.
- É assim que eles me chamam – Respondeu, ainda apático.
- Eu sinto algo dentro de você... O que é isso?
- Eu não mereço ser o líder deles – Disse e olhou para trás, e pude ver o olhar de surpreso de todos eles quando ouviram isso de seu líder – Não os conheço à muito tempo, e todos sabem que eu somente faço as coisas por mim mesmo. Eu não sinto nada mais. Não tenho sentimentos, e sou incapaz de sentir intensamente alegria ou dor. Amor ou ódio.
- Então o que faz aqui?
- O mesmo que você. Estou em busca de algo... E quero provar algo para mim mesmo – Disse e olhou para o seu lenço vermelho amarrado ao seu braço.
E o tempo parou denovo. E eu, congelei junto dessa vez.
Quando ele olhou para aquele lenço algo transbordou de dentro de seu corpo. Não era um sentimento compreensível ou classificável. Era algo sem nome que fazia tudo ao seu redor tremer. Era uma força sem leis, sem lado, sem rédeas. Algo puro e selvagem ao mesmo tempo e com mesma proporção.
- Eu – Disse em voz baixa e depois levantou os olhos, pela primeira vez com uma expressão séria – Vou defendê-los até o fim. Mesmo sabendo de tudo que fui e que sou, me tornaram seu líder e estão do meu lado nessa luta. Eles acreditam em mim, mesmo que eu não.
Essas palavras fizeram todo o medo dos guerreiros dissipar e os deu forças para vencer o campo magnético que estava os prendendo. Seu líder convenceu à todos – inclusive à mim e à si mesmo – que agora sabia porque estava ali.
- Lou! – Disseram todos, um à um, para o guerreiro do lenço vermelho, armadura brilhante e longos cabelos pretos, transbortando como uma cachoeira de seu helmo.
Lou. Deveria ser seu nome.
Todos estavam prontos para lutar, graças ao seu líder. E eu também, pois sabia qual era o motivo de minha existência ali. A minha força nunca fez sentido sozinha, por isso eu estava perdido e certamente seria derrotado com o tempo. Agora, ao menos certamente a minha força dá sentido à força irmã ali do outro lado do campo.
A batalha deixou de ter o contexto de antes. Não é simplesmente uma luta do bem contra o mal. Do dia contra a noite. Da Lua contra o Sol. É uma luta entre forças que se completam mas que no fim são iguais.
Se alguém perguntasse à cada um de nós agora, em ambos os lados, se estávamos prontos para morrer lutando e sem arrependimentos, a resposta seria a mesma.
- Sim.
A diferença é que todos nós sabíamos agora o porquê.
Que a batalha continue. Uma luta leal, justa e definitiva.
E dessa vez, até o fim.
Yu - "O Propósito"
sexta-feira, 7 de maio de 2010Peguei o bumerangue afiado nas costas e o lancei com precisão com a minha mão direita, como nosso mestre da floresta havia nos ensinado.
- O que você está fazendo aqui? - Disse, me olhando agora fixamente, sendo direta como sempre foi.
Os punhos de Yu cerraram novamente, e ela começou a suar, explodindo de raiva.
Yu - "Crianças"
segunda-feira, 15 de março de 2010Depois de uma hora ou duas, estávamos para sair, quando ouvimos alguns guardas reais bebendo e conversando.
Iosef - "Espada e Escudo"
domingo, 7 de março de 2010Em minha vida, sentimentos ruins me fizeram caminhar nas sombras e, então, sentimentos bons me transformaram. O que será uma vida sem sentimentos? Meu filho não merecia isso.
Então, "Ele" desapareceu junto ao altar e a plataforma. Tudo o que restou foi a cama de Ilana. Fiquei parado um pouco do lado dela, olhando-a dormir e pensando em nosso filho. Ele carregaria toda a minha culpa em si e nem saberia disso. Nada faz sentido.
