Ouvia bem ao fundo os sons dos passos vindos de longe, ao que pareciam ser sapatos temendo seu próprio som. Era algo que desafinava a melodia que eu sentira, pacificamente e longe dali...
- Droga! - Disse uma voz ao som de um tropeço dos sapatos que antes faziam um toc-toc ritmado, quebrando de vez meu encanto. Dei um salto do sofá devido ao susto e tentei recobrar a consciência. Meu apartamento começou a tomar forma, e na minha esquerda, à dois metros da porta, vi um borrão ficar cada vez mais visível. Comecei a juntar os fatos enquanto acordava e cheguei à conclusão que o borrão era o responsável pelo toc-toc anterior e o xingamento, bem como o que me fez saltar do sofá como um gato assustado quase grudando no teto. E o borrão finalmente tomou sua forma real.
Era Sophia.
Concluí que ela planejava ir embora antes que eu acordasse, evitando ter que se deparar comigo no dia seguinte ao que havia acontecido.
- Eu... eu... eu já estou indo embora, desculpa - Disse a garota pálida e quase chorando.
- Bom dia, Sophia - Respondi, tentando não alimentar a sua culpa. - Por favor, tome café da manhã comigo. Depois você pode ir embora se quiser.
Sophia não falou nada e começou a tremer inteira, o que não era totalmente psicológico, pois ela não tinha casaco e o clima literalmente esfriou na noite passada e prosseguia assim agora pela manhã. Levantei e me aproximei dela, que não conseguia falar nada.
- Por favor - Disse e sorri, e extendi minha mão para ela. A expressão no seu rosto rosto mudou, como se parasse de olhar para mim com medo. Ela olhou para minha mão, depois para mim e depois para minha mão novamente, e lentamente extendeu sua mão até a minha. Senti o calor da sua pequena mão segurando na minha, com cada vez mais confiança e menos receio.
- Tá... - Foi tudo o que disse, mas valeu como algumas dezenas de palavras para ela.
- Deixe-me pegar um casaco pra você, está frio - Disse e sorri para ela, que acenou que sim com a cabeça e sorriu confirmando minha afirmação.
Fui até meu quarto e me lembrei de algo que evitava lembrar recentemente. Minha ex-namorada, que morou comigo por alguns meses, deixou algumas coisas suas aqui e nunca mais veio buscar, quando resolveu ir embora sem muitas explicações. Abri o guarda-roupas e encontrei um casaco de lã, um pouco maior que o tamanho de Sophia. Peguei-o e voltei até a sala.
Ao chegar lá me assustei, pois não encontrava Sophia, e logo cheguei à conclusão de que ela poderia ter ido embora. Senti certa decepção, olhando para o casaco vermelho na minha mão, mas ao me virar para voltar ao quarto vi a garota na janela no canto da sala, quase escondida. Olhava longe, como se olha quando está sentado sozinho na beira da praia apreciando as ondas do mar.
- Você me assustou, pensei que tinha ido embora - Disse, me aproximando dela. - Pegue esse casaco.
- Desculpe... é que a vista é bonita nesse lado da cidade - Disse enquando vestia o casaco aberto. - Obrigada... estava mesmo com frio - Admitiu, num sorriso avermelhado de vergonha.
- Denada... Venha comigo - Disse e fomos até a cozinha.
Sophia se sentou à mesa e eu fui procurando café para alimentar a cafeteira. Procurei no balcão geléia e torradas e coloquei-as sobre a mesa. Ficou um silêncio estranho no ar, como se ambos estivessem com medo de conversar sobre o que aconteceu. Então, resolvi encarar o problema de frente.
- Posso lhe perguntar uma coisa? - Falei.
- Hm... sim, pode - Respondeu a garota com medo do que seguiria.
- Sophia é seu nome mesmo?
- Sim, é... - Disse e ficou em silêncio por alguns instantes. - Quando estava vindo para cá, pensei em uma dúzia de nomes para dizer... Mas não consegui dizer nenhum deles quando você perguntou meu nome.
- Por que?
- É... porque não adiantaria eu fingir ser outra pessoa. Era eu vindo aqui, e não era certo comigo mesma fingir que não - Disse Sophia, que mordeu os lábios e olhou para baixo, e senti que seus olhos estavam se enchendo de lágrimas denovo.
- Calma... é que eu acho seu nome lindo, e estava pensando se era real - Disse e me aproximei dela, e encostei minha mão no seu rosto, que se levantou e olhou pra mim. - e eu quero conhecer agora quem você é de verdade.
Sophia não disse nada, mas sorriu gentilmente pra mim. Reparei em como eu ficava fascinado pelo seu sorriso, e não entendia como essa linda garota teve que chegar até onde chegou.
- Pode perguntar... eu estou bem - Disse Sophia, me surpreendendo.
- Eu... gostaria de saber a sua história... Mas está tudo bem se você não quiser falar sobre isso - Disse e levei a cafeteira até à mesa, enchendo então as duas xícaras e me sentando junto à ela.
- Está tudo bem... Bem... minha mãe morreu quando eu tinha sete anos, e então fui obrigada a morar com meu pai. Ele... - Disse e então parou, como se juntasse forças para combater alguma coisa enquanto adoçava seu café. - ele começou a beber depois que ela morreu, e batia em mim às vezes. Quando eu tinha dezesseis anos, ele tentou abusar de mim, e eu resolvi que era hora de sair daquela casa.
- Eu... sinto muito - Falei, surpreso com o que ela contara.
- Aí fui morar com uma prima e consegui um emprego em uma lanchonete. Estava tudo certo até meus dezoito anos. Foi quando ela se mudou para a casa de um cara e eu fiquei sozinha. Não conseguia nem pagar o aluguel.
- E como... - Disse sem pensar e me arrependi.
- Como eu virei uma garota de programa? - Disse Sophia com um ar exaltado.
- Me desculpe... me desculpe mesmo, não é da minha conta.
Senti um frio, dessa vez psicológio, em nossa volta. Sophia ficou quieta, enquanto olhava para o lado e tomava o café quente. Pensei que havíamos voltado à estaca zero na conversa.
- Você está sendo legal comigo e eu estou sendo áspera. Me desculpe - Disse e olhou para mim. Então, como se tivesse lembrado de algo, procurou seu celular. - Droga, estou atrasada...
- Atrasada? - Perguntei.
- Sim... eu tinha que ir nessa manhã me matricular...
- Onde?
- Em uma faculdade... é o último dia. Mas deixa pra lá, não vai dar tempo, é do outro lado da cidade.
Eu senti nela um ar de tristeza e decepção. Aquilo era muito importante para ela.
- Vamos, eu te levo lá - Disse e me levantei, estendendo a minha mão novamente até ela.
Sophia olhou para mim como se não acreditasse no que disse. Senti como se ela tivesse alcançado suas esperanças novamente. A senti feliz.
- Obrigada...
Ela pegou na minha mão e se levantou. Me virei para procurar minhas chaves e soltei sua mão. Dois ou três passos seguintes, me surpreendi de uma forma incrível. Ela pegou na minha mão novamente e prosseguiu segurando-a, sem dizer nada. Foi natural, algo vindo dentro de si que move o corpo.
E assim fomos, de mãos unidas, até o meu carro.
Em direção às esperanças de Sophia.
Jacques - "Respeito"
domingo, 28 de março de 2010
Antes de sair do meu apartamento, olhei para o espelho e reparei em mim mesmo. Tinha um olhar de sonolento graças à mais uma noite mal dormida - que com sorte um capuccino logo resolveria - usava um terno sem um bom caimento, uma gravata com listras finas e diagonais e um relógio prateado e caro que as pessoas olhavam e tiravam conclusões sobre mim - que à propósito não me interessa saber quais são. Reparei no meu rosto e nas linhas que o tempo tinha esculpido, bem como a minha barba rala e meu cabelo quase raspado, para dar contraste à calvice que o tempo também tinha trazido.
Sou um executivo indo para o trabalho. Um executivo que como todos os outros que conheço, teve que sacrificar alguns conceitos de adolescente para chegar onde quis.
Peguei minhas coisas em cima da cama de casal mal arrumada e saí. Andei pela rua, pensava nas pessoas que cruzavam por mim e tentava lembrar se quando estava na faculdade conseguia andar por todos sem ter a impressão de que vestia vermelho no dia que toda a cidade resolveu vestir branco, embora ninguém que passasse por mim realmente prestasse atenção nisso.
Lembrei da minha aparência cansada e sonolenta e resolvi desviar um pouco o caminho para dar um jeito nisso.
- Café Santa Martha - Li em voz baixa, parado na frente da cafeteria que ficava à duas quadras do trabalho e que frequento desde... sempre.
Entrei no lugar e me deparei com o usual. Algumas pessoas tomando um café com biscoitos olhando para o mogno do balcão e amigos ou casais sentados às mesas comendo, conversando e se preparando para ir estudar ou trabalhar. Me aproximei do balcão e procurei Janine, a garçonete.
- Bom dia, Sr. West! Vai querer o de sempre? - Disse Janine do lado oposto ao que eu a procurava, com um sorriso bonito mas profissional. A moça era bonita, com seus olhos azuis, cabelos loiros e seus vinte e tantos anos
- Bom dia, Janine. E sim, quero o de sempre... só que é pra levar, estou com pressa hoje.
- Certo. Tudo bem com o Sr? Parece cansado... - Perguntou, enquanto preparava o capuccino.
- Tudo bem sim, e com você? - Respondi com a mentira mais contada na história da humanidade, logo depois dando à ela a vez de dizer a mesma coisa, mentira ou não.
- Tudo bem também... - Repondeu, para o bem das minhas expectativas - Aqui está seu capuccino, tenha um bom dia! - Disse, me entregando o copo. Ela então propositalmente tocou na minha mão esquerda e me deu um sorriso, dessa vez não profissional. Me despedi provavelmente com uma cara de dúvida e logo peguei o capuccino e fui com certa pressa para o trabalho.
Cheguei na frente do edifício e fiquei ali parado um tempo. Lembro quando eu tinha conseguido emprego aqui, logo depois da faculdade. O prédio parecia ter milhares de andares, como um verdadeiro colosso no meio da cidade. Mas, com o tempo, foi ficando cada vez menor. Ele não encolhera, acredito que o que mudou fui eu. Hoje, acredito que a realidade faz bem.
Fui escalando o longo lance de escadas, e via várias pessoas subindo e descendo. Eram estagiários, entregadores, executivos e mais todos os tipos de empregados, fazendo música sem saber com os seus passos e conversas para todos os lados.
- Ei... tem um trocado para um esfomeado? - Disse uma voz à minha esquerda, quebrando a música com uma pergunta e uma rima.
Virei para ver um homem sentado ao chão. Tinha cabelos castanhos e enormes e uma barba grande. Vestia trapos e estava sujo ao chão, usando um par de chinelos diferentes. Era um mendigo, como muitos nessa metrópole.
- Não, não tenho - Respondi, mentindo e seguindo algumas regras que tomei pra mim ao longo do tempo.
- ha ha ha, então quer sentar aqui comigo e ver se tem mais sorte que eu? - Perguntou, rindo em meio ao sarcasmo.
- Vou indo, melhor sorte com outro - Falei, me despedindo. Me virei e voltei a subir as escadas, tentando encontrar a música dos passos denovo.
- Aposto que você vive sozinho. E se alguém vivia com você, foi embora - Disse o mendigo.
Nessa hora eu parei porque meu corpo congelou.
- Quem é você? Como me conhece?? - Perguntei, depois de descer a meia dúzia de degraus que tinha subido.
- Agora quer saber quem sou eu, é? ha ha ha. Eu sou ninguém. Só quero uns trocados para comer - Disse, se esquivando da última pergunta.
- Eu quero saber como diabos você me conhece - Perguntei novamente, alterado.
- Eu não te conheço. Você que é fácil de ler como um livro.
Abri a boca pra dizer algo mas não saiu nada. Lembrei de mais cedo, quando estava me olhando no espelho. Se eu não me conhecesse e somente analisasse a mim mesmo, chegaria à conclusões bem próximas de quem eu realmente sou.
- West! O que está fazendo aqui fora? Vamos subir, temos uma reunião daqui a pouco - Disse Edgar, escalando os degraus sem entender porque eu perdia tempo com um mendigo.
- Eu.... deixe pra lá, suba na frente que eu já vou - Respondi ao recém contratado funcionário que trabalhava na parte administrativa. Um peão novo e petulante na maneira como se dirigia à mim.
- Ok, West... lhe espero lá em cima!
Olhei o jovem rapaz subindo as escadas que eu deveria ter subido à algum tempo. Me voltei ao mendigo novamente.
- ha ha ha... engraçado, não é? Ele trabalha pra você e não te respeita... E faz de conta que te respeita perto dos outros. Duvido que West seja o seu nome... - Disse o mendigo.
- Chamar alguém pelo sobrenome é uma forma de respeito... e é mais fácil de identificar do que pelo nome - Respondi, repensando depois o porquê não tinha ido embora ainda.
- Certo... então não seria mais fácil te chamar por um número? Suba lá e diga que você se chama Onze! Duvido que haja outro, o que ainda pode acontecer com algum outro West - Retrucou, com sarcasmo novamente.
- Eu... ah cale-se. Quem é você pra me dizer alguma coisa? Olhe onde você está... Nem nome lhe interessa.
- Pode me chamar de qualquer coisa, Onze - Disse, me irritando ainda mais.
- Do jeito que é e se veste, se acha quem? Jesus, por acaso? Ah já sei... faz isso pra ganhar mais esmolas?
- ha ha ha... então agora eu sou Jesus! Prazer, Onze... Meu nome é Jesus! ha ha ha. E acho que não está dando certo com as esmolas, já que você não me deu nem um centavo.
- Chega, vou trabalhar - Finalizei, me virando para sair dali e continuar a escalada.
- Até mais Onze... Ah! Ei, olhe aqui! Pense rápido! - Me virei e o vi jogar uma moeda em minha direção e logo a peguei no reflexo com a mão esquerda, pois na direita estava meu capuccino agora provavelmente morno.
Pensei em retrucar alguma coisa mas o ignorei e voltei às escadas. Decidi que não adiantava mais argumentar com ele, que não conhecia a minha história e falava como se conhecesse cada coisa a meu respeito - Minha ex-mulher... como ele pôde adivinhar isso? - Não conseguia tirar isso da cabeça.
Terminei de subir as escadas e entrei no prédio, rezando para não encontrar ninguém conhecido para tentar não piorar esse dia bizarro que estava seguindo. Estava passando pelo balcão em direção aos elevadores e avistei Marina, a recepcionista.
- Bom dia, Sr. West - Disse a moça seguindo o protocolo.
- Bom d...
Parei de andar e pensei um pouco. Olhei para a moeda que o mendigo... "Jesus"... havia me dado. Me virei à moça, que me olhou com um olhar de confusão.
- Eu... Olhe, meu nome é Jacques. Bom dia.
Sou um executivo indo para o trabalho. Um executivo que como todos os outros que conheço, teve que sacrificar alguns conceitos de adolescente para chegar onde quis.
Peguei minhas coisas em cima da cama de casal mal arrumada e saí. Andei pela rua, pensava nas pessoas que cruzavam por mim e tentava lembrar se quando estava na faculdade conseguia andar por todos sem ter a impressão de que vestia vermelho no dia que toda a cidade resolveu vestir branco, embora ninguém que passasse por mim realmente prestasse atenção nisso.
Lembrei da minha aparência cansada e sonolenta e resolvi desviar um pouco o caminho para dar um jeito nisso.
- Café Santa Martha - Li em voz baixa, parado na frente da cafeteria que ficava à duas quadras do trabalho e que frequento desde... sempre.
Entrei no lugar e me deparei com o usual. Algumas pessoas tomando um café com biscoitos olhando para o mogno do balcão e amigos ou casais sentados às mesas comendo, conversando e se preparando para ir estudar ou trabalhar. Me aproximei do balcão e procurei Janine, a garçonete.
- Bom dia, Sr. West! Vai querer o de sempre? - Disse Janine do lado oposto ao que eu a procurava, com um sorriso bonito mas profissional. A moça era bonita, com seus olhos azuis, cabelos loiros e seus vinte e tantos anos
- Bom dia, Janine. E sim, quero o de sempre... só que é pra levar, estou com pressa hoje.
- Certo. Tudo bem com o Sr? Parece cansado... - Perguntou, enquanto preparava o capuccino.
- Tudo bem sim, e com você? - Respondi com a mentira mais contada na história da humanidade, logo depois dando à ela a vez de dizer a mesma coisa, mentira ou não.
- Tudo bem também... - Repondeu, para o bem das minhas expectativas - Aqui está seu capuccino, tenha um bom dia! - Disse, me entregando o copo. Ela então propositalmente tocou na minha mão esquerda e me deu um sorriso, dessa vez não profissional. Me despedi provavelmente com uma cara de dúvida e logo peguei o capuccino e fui com certa pressa para o trabalho.
Cheguei na frente do edifício e fiquei ali parado um tempo. Lembro quando eu tinha conseguido emprego aqui, logo depois da faculdade. O prédio parecia ter milhares de andares, como um verdadeiro colosso no meio da cidade. Mas, com o tempo, foi ficando cada vez menor. Ele não encolhera, acredito que o que mudou fui eu. Hoje, acredito que a realidade faz bem.
Fui escalando o longo lance de escadas, e via várias pessoas subindo e descendo. Eram estagiários, entregadores, executivos e mais todos os tipos de empregados, fazendo música sem saber com os seus passos e conversas para todos os lados.
- Ei... tem um trocado para um esfomeado? - Disse uma voz à minha esquerda, quebrando a música com uma pergunta e uma rima.
Virei para ver um homem sentado ao chão. Tinha cabelos castanhos e enormes e uma barba grande. Vestia trapos e estava sujo ao chão, usando um par de chinelos diferentes. Era um mendigo, como muitos nessa metrópole.
- Não, não tenho - Respondi, mentindo e seguindo algumas regras que tomei pra mim ao longo do tempo.
- ha ha ha, então quer sentar aqui comigo e ver se tem mais sorte que eu? - Perguntou, rindo em meio ao sarcasmo.
- Vou indo, melhor sorte com outro - Falei, me despedindo. Me virei e voltei a subir as escadas, tentando encontrar a música dos passos denovo.
- Aposto que você vive sozinho. E se alguém vivia com você, foi embora - Disse o mendigo.
Nessa hora eu parei porque meu corpo congelou.
- Quem é você? Como me conhece?? - Perguntei, depois de descer a meia dúzia de degraus que tinha subido.
- Agora quer saber quem sou eu, é? ha ha ha. Eu sou ninguém. Só quero uns trocados para comer - Disse, se esquivando da última pergunta.
- Eu quero saber como diabos você me conhece - Perguntei novamente, alterado.
- Eu não te conheço. Você que é fácil de ler como um livro.
Abri a boca pra dizer algo mas não saiu nada. Lembrei de mais cedo, quando estava me olhando no espelho. Se eu não me conhecesse e somente analisasse a mim mesmo, chegaria à conclusões bem próximas de quem eu realmente sou.
- West! O que está fazendo aqui fora? Vamos subir, temos uma reunião daqui a pouco - Disse Edgar, escalando os degraus sem entender porque eu perdia tempo com um mendigo.
- Eu.... deixe pra lá, suba na frente que eu já vou - Respondi ao recém contratado funcionário que trabalhava na parte administrativa. Um peão novo e petulante na maneira como se dirigia à mim.
- Ok, West... lhe espero lá em cima!
Olhei o jovem rapaz subindo as escadas que eu deveria ter subido à algum tempo. Me voltei ao mendigo novamente.
- ha ha ha... engraçado, não é? Ele trabalha pra você e não te respeita... E faz de conta que te respeita perto dos outros. Duvido que West seja o seu nome... - Disse o mendigo.
- Chamar alguém pelo sobrenome é uma forma de respeito... e é mais fácil de identificar do que pelo nome - Respondi, repensando depois o porquê não tinha ido embora ainda.
- Certo... então não seria mais fácil te chamar por um número? Suba lá e diga que você se chama Onze! Duvido que haja outro, o que ainda pode acontecer com algum outro West - Retrucou, com sarcasmo novamente.
- Eu... ah cale-se. Quem é você pra me dizer alguma coisa? Olhe onde você está... Nem nome lhe interessa.
- Pode me chamar de qualquer coisa, Onze - Disse, me irritando ainda mais.
- Do jeito que é e se veste, se acha quem? Jesus, por acaso? Ah já sei... faz isso pra ganhar mais esmolas?
- ha ha ha... então agora eu sou Jesus! Prazer, Onze... Meu nome é Jesus! ha ha ha. E acho que não está dando certo com as esmolas, já que você não me deu nem um centavo.
- Chega, vou trabalhar - Finalizei, me virando para sair dali e continuar a escalada.
- Até mais Onze... Ah! Ei, olhe aqui! Pense rápido! - Me virei e o vi jogar uma moeda em minha direção e logo a peguei no reflexo com a mão esquerda, pois na direita estava meu capuccino agora provavelmente morno.
Pensei em retrucar alguma coisa mas o ignorei e voltei às escadas. Decidi que não adiantava mais argumentar com ele, que não conhecia a minha história e falava como se conhecesse cada coisa a meu respeito - Minha ex-mulher... como ele pôde adivinhar isso? - Não conseguia tirar isso da cabeça.
Terminei de subir as escadas e entrei no prédio, rezando para não encontrar ninguém conhecido para tentar não piorar esse dia bizarro que estava seguindo. Estava passando pelo balcão em direção aos elevadores e avistei Marina, a recepcionista.
- Bom dia, Sr. West - Disse a moça seguindo o protocolo.
- Bom d...
Parei de andar e pensei um pouco. Olhei para a moeda que o mendigo... "Jesus"... havia me dado. Me virei à moça, que me olhou com um olhar de confusão.
- Eu... Olhe, meu nome é Jacques. Bom dia.
Yu - "Crianças"
segunda-feira, 15 de março de 2010Chegamos de madrugada no reino de Talluh, e a primeira coisa que pensamos em fazer foi passar pelo Pub da cidade. Todavia, nossos motivos por lá não eram beber as especialidades da região e sim responder a um chamado do Rei, provavelmente interessado no que podíamos fazer na véspera do que todos chamavam de "A grande guerra".
- Não devíamos estar aqui - Disse.
- Isso não vai nos impedir de ver o Rei amanhã... relaxa - Respondeu Yu.
Entramos no bar e nos deparamos com todo o tipo de gente. É o tipo de lugar que qualquer um é aceito desde que não faça besteira, então estávamos em casa. Bebemos e conversamos sobre a viagem e nossas outras aventuras passadas.
Depois de uma hora ou duas, estávamos para sair, quando ouvimos alguns guardas reais bebendo e conversando.
- ... Ele tem causado medo e pânico nas pessoas - Disse um dos guardas.
- Já não basta a guerra estar se aproximando e ainda temos que nos preocupar com isso... Se continuar assim e não fizermos nada, seremos banidos da guarda real - Falou o outro guarda, preocupado.
- Já são trinta mortes... Trinta!
Yu se levantou para sair e a parei, segurando-a pelo braço.
- Não devíamos nos preocupar com isso? - Falei, apontando com a cabeça para os guardas.
- Não é da nossa conta, vamos. - Disse, sem um pingo de preocupação.
Fui a seguindo e pensando na boa noite de sono que seguiria.
- Sim, todas crianças - Disse o outro guarda.
Nessa hora Yu parou, e confesso que tomei cuidado com o que falaria para ela. Por isso, não falei nada.
- É... dizem que ele se esconde na floresta de Lunna... Mas lá é território dos Elven, então não podemos fazer nada. - Complementou o outro guarda.
Ja tinha ouvido falar nessa floresta. É um lugar exótico e cheio de lendas, mas não sou do tipo que acredita nelas. Provavelmente são boatos para afastar as pessoas de um lugar estrangeiro e perigoso.
Yu se virou e olhou pra mim.
- Mudei de idéia - Disse.
- Isso não é da nossa conta - Respondi, com um tom de sarcasmo que me arrependi depois, porque lembrei o motivo de crianças mexerem com ela.
Seus olhos se encheram de raiva, tanto que pensei que me atacaria ali mesmo. Mas fechou os olhos e se acalmou. Deve ter se lembrado que eu não tenho consciência e não tenho culpa disso.
- Agora é da nossa conta - Disse Yu, agora mais calma.
- Isso sim vai nos atrasar de ver o Rei - Falei.
- O Rei que espere, isso é mais importante.
Comecei a pensar na noite de sono que agora não teria.
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