- Dante! Cadê você?? - Diz a pequena Yu, o que no fim acabou sendo só um vulto por entre as pernas de pessoas andando pra lá e pra cá.
- Estou aqui! Yu? Me dá sua mão - Grito enquanto tento empurrar as pessoas buscando a pequena mão de minha irmã. Sigo agachado ao ver um espaço e finalmente consigo alcançá-la. - Pronto!
- Nunca mais me solte! - Diz Yu nervosa, mas são e salva.
- Desculpa... Prometo que vou ter mais cuidado, está bem?
- Uhum.
Peguei pela sua mão e seguimos com mais cuidado, até chegamos à grande fonte que inicia as quatro grande vielas que formam uma cruz, dando nome à cidade. Seguimos para a outra viela e avistamos quatro homens, usando vestimentas reais. Guerreiros.
- Irmão, quem são eles? - Diz Yu puxando o meu braço.
- São Guerreiros do reino. Na verdade, são guerreiros especiais de Talluh.
- Por que especiais?
- Não sei direito... Dizem que eles seguem ordens diretas do Rei.
- O que será que fazem aqui na cidade?
- Não sei... não deve ser nada - Minto, pois acredito que deve ser algo bem importante.
- Ahn... As espadas deles são bonitas!! Será que eu vou ter uma um dia?
- Haha... Espero que não, irmã.
- Por que?
Não há resposta para essa pergunta que ela pudesse de fato compreender. Não é hora dela saber que nosso pai fazia parte desse grupo especial e que acabou morrendo em missão.
- Porque você é uma pequena garotinha ruiva, oras! - Digo, brincando.
- Você tem só doze anos! Um dia eu não vou ser mais pequena, irmão...
- Mas pense bem, quando você for atacar um urso com a sua espada você vai gritar "Yuu!" como quando não sabia falar? Ha ha..
- Você sabe que eu não gosto que você me chame assim! Não é o meu nome!!
- Agora já é tarde, me acostumei. E pense bem, se só eu te chamar assim é a maneira de você saber que você é especial pra mim!
- Ah, pare! - Diz e me dá um soco no ombro, da ponta dos pés.
- Ei ei! Guarde sua energia para os ursos. Bom, vamos logo para casa que está anoitecendo. Temos que passar na dona Anna antes de voltar.
Mais tarde.
Voltamos para casa, com um pacote de mantimentos que nossa mãe pediu e alguns doces que Yu implorou para pegarmos. Ela voltava comendo com tanta concentração que nem ouvia o que eu falava.
Chegamos em nossa simples casa e sinto algo estranho no momento que piso porta adentro. Silêncio completo.
- Yu, espere aqui - Digo, e ela fica parada sem entender.
Sigo com cuidado e devagar pela casa buscando nossa mãe. A cada passo que dou, uma angústia premonitiva me domina aos poucos. Entro no seu quarto e me deparo com seu corpo em cima da cama, coberto de sangue.
Nada, é o que sinto.
- Dante!! - Ouço Yu gritar e saio correndo ao seu encontro.
Chego na sala e Yu vem em minha direção chorando, apontando para a porta. Vejo sombras se aproximando e tomando forma.
São os quatro guerreiros reais que vimos na fonte mais cedo. Entram pela porta. Um deles limpa sua espada banhada em sangue. Sangue de nossa mãe.
- Garoto, saia da frente. Viemos buscar a ruiva. Não faça nada estúpido e deixamos você viver - Disse o homem de vestimentas escuras.
- Seus desgraçados!! Vão embora!!
Yu está congelada atrás de mim, segurando na minha camisa.
- Nos entregue-a e saia da frente garoto, senão você vai se juntar à sua mãe logo. - Todos riem alto.
Não penso. Na verdade, só penso em Yu. Corro, agarro uma garrafa em cima da mesa, pego impulso em uma cadeira e salto, quebrando-a com toda a força no rosto do guerreiro. Caio em cima dele.
- Garoto desgraçado!! - Diz o guerreiro ensanguentado que me empurra, se levanta e pega sua espada.
Levanto e vou de volta ao encontro de Yu, para protegê-la.
- Vão embora! - Grito, na frente de Yu, entre ela e os guerreiros.
- Saia da frente, garoto idiota! - Diz o guerreiro, e desfere com sua espada um golpe certeiro no meu peito, me jogando contra a mesa.
A dor é insuportável, diante tamanho ferimento. Mal tenho forças para me mexer, quiçá para me levantar. Só penso em Yu, que vem ao meu encontro desesperada.
- Irmão!! - Diz a pequena ruiva em cima de mim.
- Garota, agora venha comigo. - Diz o guerreiro se aproximando.
Me assusto com o que vejo. Yu fecha os olhos por um momento e fica praticamente desacordada. Os reabre, com uma feição que nunca havia visto antes. Seus olhos ficam acinzentados, e ela, totalmente apática. Se vira aos guerreiros. O que vinha em sua direção pára, sem compreender.
Sinto algo frio e escuro em torno dela. Como se a abraçasse. Vejo ela flutuar - como se fizesse parte de um outro corpo maior que o seu - e asas escuras feitas de sombras surgirem em suas costas. Os guerreiros recuam. Yu grita e parte com velocidade e selvageria para o guerreiro, empalando-o na altura do coração, com sua garra escura do outro corpo que a envolvia, feito de sombras.
Os outros guerreiros saem da casa assustados. Yu solta o corpo do guerreiro morto e vai atrás dos outros, quebrando parte da porta pela sua força e seu corpo maior. Consigo ouvir lá fora o barulho dos gritos.
Cessam. Silêncio novamente. E muita dor.
Fecho os olhos por alguns instantes e consigo os reabrir. Vejo Yu em minha frente, envolta pelas sombras. Me olha estática, com seu rosto sem feição e seus olhos acinzentados. De repente, as sombras se dissipam e ela cai desacordada no chão.
Olho na porta e vejo um homem com sua mão levantada na direção de Yu, em uma luva escura envolta num brilho roxo. Ele é diferente dos guerreiros que estavam aqui antes. Só consigo ver que usa uma máscara branca e tem grandes cabelos castanhos.
- Você é mesmo a criança especial, garota. - Diz ao se aproximar e pegar Yu nos braços.
Vai em direção à porta, levando minha irmã.
- Yu... - Digo quase sem forças, enquanto a dor cessa e fico entorpecido.
O homem vira-se em minha direção e diz:
- Sive deus sive dea.
Tudo fica escuro.
